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Andaimes da Construção

Por: Egídio Garcia Coelho

Estamos acostumados a encontrar por entre os tantos arranha céus que já existem, alguns tapumes de obras acobertando o nascimento/construção de uma nova obra (edifício) que quase sempre o arquiteto, procura fazer com que ao ficar pronta possa ostenta-la com superioridade em beleza e praticidade entre as demais.

Quero fazer deste parágrafo uma metáfora comparando com nossa vida até atingirmos nossa maturidade espiritual entre quarenta e quarenta e cinco anos. (Em AT-Análise Transacional, por ciclos de 7 anos, chega-se na maturidade espiritual entre 49 e 56 anos, se não me falha a memória).

Dado a arcaica pedagogia que ainda enfrentamos, nossos talentos quase sempre são castrados pela equivalência de notas que sofremos nos primeiros anos de estudos que mesmo assim, já é um privilegio, quando tantos semelhantes sequer podem sonhar em tê-los.

Crescemos aprendendo a nos adaptar gradativamente a uma luta constante de disputa por espaço e poder tão forte que já nos nossos primeiros passos quando temos acesso a algum objeto, conseguindo segura-lo nas mãos, nos sentimos donos reagindo defensivamente se alguém ameaça tira-lo de nossas mãos.

Sabemos que nossos egos podem vir desenvolvidos geneticamente e também por instinto pela influência de reinos ou existências anteriores, fazendo de nossa mente uma escrava fiel desses, durante nossa existência.

Para fazer sentido o texto, devemos considerar aqui os egos, como sendo os Sete Pecados Capitais, fugindo da nossa psicologia tradicional. Costumo usar para representa-los a sigla SALIGIP, sendo eles: Soberba, Avareza, Luxúria, Ira, Gula, Inveja e a Preguiça.

Aprendemos com nossos esforços buscando nos estudos em diversos níveis até a formação acadêmica ou mesmo somente na escola da vida, que precisamos para obter sucesso adquirir habilidades como: Liderança, Economia, Prazer, Ação, Sustento, Ambição Sadia e Descanso, como básico entre outras tantas necessidades.

Na construção da nossa obra, ou seja, nossa vida, para que venha servir de exemplo, orientando nossos descendentes ou quem quer que venha a precisar da nossa influência no seu desenvolvimento, acabamos por ter que dispor dos nossos egos como andaimes indispensáveis durante a execução do projeto que nem sempre é por nós elaborado.

Vejamos:

A Soberba.
Para desenvolvermos uma liderança, diante da limitação de conhecimento e entendimento dos colaboradores ou alunos, precisamos em algumas circunstâncias, ostentar uma certa superioridade (soberba) impondo autoridade, mesmo que sutil e coerente.

A Avareza.
Sem adquirir o hábito de economizar, ou seja, guardar um pouco do que podemos com sacrifício ou mesmo sobras, jamais seriamos capazes de acumular um capital para vir a iniciar um projeto mais significativo ou mesmo a aquisição de um bem qualquer. Para isso, teremos que ignorar necessidades básicas de muitos semelhantes, mesmo sabendo que alguns sequer dispõem do mínimo necessário para a alimentação.

A Luxúria.
Vivemos numa constante luta e uma acirrada competitividade que de alguma forma precisa ser compensado para sentirmos o sabor da vida. Então buscamos algo que nos traga “prazer” fora do trabalho, preenchendo assim algum tempo, desfrutando de ocupações prazerosas que acabam por carregar nossas baterias.

A Ira.
Ela é nossa propulsora da ação. Para que possamos produzir e enfrentar desafios, precisamos sentir dentro de nós um impulso capaz de vencer qualquer obstáculo que possa aparecer no nosso caminho rumo ao objetivo. Não conseguimos fazer força ou fixar determinação ferrenha sem fazer uso dela que quando equilibrada pode ser identificada como raiva e somada com a alegria, nos torna extrovertidos e produtivos.

A Gula.
Diante de tantas adversidades em nossa constante luta e em algumas circunstâncias, por ignorância, acabamos nos proporcionando desgastes que chegam a comprometer nosso organismo provocando ás vezes falta de apetite. É nessas horas que usamos os olhos e o olfato para poder despertar alguma atração por comida através da gula, garantindo assim repor energias para darmos continuidade na jornada.

A Inveja.
A inveja, se bem administrada nos leva a uma ambição sadia de querer possuir alguma coisa ou conquistar algo, fazendo de outros um referencial. E a conhecemos muito bem, agindo quase sempre de forma errônea, chegando a causar até crimes, mesmo em família.

A Preguiça.
É tão grande nossa necessidade de vencer na vida, que algumas vezes diante de um planejamento estratégico, se houver algum atraso num cronograma, ou mesmo diante de uma contrariedade qualquer, somos capazes de ultrapassar nossos limites de reservas, podendo provocar sérios danos á saúde. Então quando necessário, nossa mente pode nos proteger permitindo uma dosagem significativa de indisposição esporádica para que em uma determinada hora ou dia, se possa optar por uma boa parada radical, evitando às vezes crises das mais variadas.

Assim, falamos resumidamente de cada um dos Sete Pecados Capitais, sendo úteis, sem entrar em detalhes, deixando margem para muitas argumentações contrárias. Sabemos sim da necessidade do equilíbrio e tanto que nossa experiência de vida mostra que acabamos por extrapolar no uso de cada um deles e em especial até de forma inconsciente, a luxúria (prazer) através do sexo. Tanto que a mídia tem esse alvo como principal foco, por saberem nossas lideranças mundiais o ponto fraco da humanidade.

Nenhuma instituição religiosa ocidental mais popular conhece o mecanismo de defesa para que possamos vencer tais inimigos após se instalarem comodamente, já que por um bom tempo foram também aliados na construção em nossa obra.

Para entendermos melhor minha metáfora vamos considerar que até nossos 40/45 anos passamos construindo nossa obra que se refere ao entendimento e compreensão, ou seja, a nossa faculdade da vida.

Normalmente passamos por sérias turbulências nessa faixa etária. O que pode ter inspirado ao autor no Velho Testamento a usar quarenta anos para descrever o povo no deserto a busca/procura da terra prometida.

Considero a terra prometida a maturidade espiritual, onde podemos parar para refletir e perceber a importância dos ensinamentos dos nossos professores, a sabedoria dos idosos mesmo sem nenhuma formação, o quanto nossos avós representam pra nós, o verdadeiro sentido do amor e em especial o da mãe. Também a amizade sincera do pai, salvo algumas exceções e a forma com que se começa a encarar os projetos sem expectativas ambiciosas e ansiedade, tendo mais confiança em Deus e reconhecendo com mais profundidade a complexidade da vida, começando a se sentir um Templo de uma Divindade que alimenta uma vida num corpo que se movimenta pela simples intenção e que possui raciocínio.

Nossa nova etapa depois dessa faixa etária consiste em iniciar a retirada dos “andaimes” dando gradativamente acabamento na obra, onde começamos a realizar com mais maturidade, sendo para muitos um verdadeiro início de tudo que até então parecia impossível. Porém, a metamorfose é sentida na grande maioria de forma até assustadora, desafiando os limites até então conhecidos. Tanto que alguns poucos sequer conseguem ultrapassar tal barreira.

Segundo nosso conceituado Teólogo Leonardo Boff, algo semelhante acontece com a águia que ao atingir 40 anos está com o bico quase inutilizado e muito curvo, suas unhas também comprometidas a ponto de ter que encarar uma verdadeira flagelação. Numa espécie de quarentena (vou usar como expressão o que me parece ser 180 dias), ela bate seu bico contra uma pedra até provocar sua queda. Com um novo bico que logo cresce, pode então extrair a força suas próprias unhas envelhecidas e inúteis, dando assim condições para uma nova etapa de mais uns 30 anos de vida nas alturas.
Nem todas são capazes de obedecer aos seus instintos, tendo-se conhecimento de algumas poucas que resolvem dar por encerrada sua jornada na primeira etapa da vida.

Segunda-feira 04 de julho de 2005.

Egídio Garcia Coelho

Publicado no Recanto das Letras em 04/07/2005
Código do texto: T31126

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