Teosofia


Caros Amigos e Irmãos: Em nome do site www.filosofiaesoterica.com,  estamos distribuindo hoje o texto “PARA COMEÇAR O ANO NOVO.”
Régis Alves de Souza


Uma nota dos editores afirma:

“O mais precioso dos recursos naturais é o tempo. O seu uso correto deve ser uma meta consciente de cada cidadão, mas requer uma certa dose de coragem. Enquanto nos aproximamos de 2010, temos uma ocasião propícia para uma avaliação honesta. O que fizemos de mais importante em nossa vida até hoje? Quais as vitórias a consolidar? Que erros não devemos repetir? Nossas metas pessoais são realistas? O que estamos dispostos a sacrificar, de fato, para alcançá-las?  O artigo em anexo dá elementos para que todos tenhamos um ingresso mais consciente e mais adequado na segunda década do século 21. Este é também o nosso sincero voto e o nosso desejo.”

A reprodução de “PARA COMEÇAR O ANO NOVO” é livre, desde que seja citada a fonte, www.filosofiaesoterica.com



Para Começar o Ano Novo

Tomando Decisões Corretas Em Relação ao Futuro
Por:

Carlos Cardoso Aveline

Cada vez que se aproxima um novo ano, deixamos de lado a rotina apressada. É uma época de transição, de descanso, e de sonho. É um momento adequado para avaliar o passado e fazer planos em relação às próximas etapas.

Começa um novo ciclo: o tempo futuro é uma página em branco, mas o passado está vivo e velhas cenas ressurgem diante de nós. É possível que situações antigas se desfaçam no ar à medida que despertamos para as novas possibilidades à nossa frente. O potencial inesgotável da vida nos abre um horizonte renovado. Temos uma percepção aguda de que o tempo passa. A vida individual não é eterna. É melhor aproveitar as oportunidades enquanto elas estão diante de nós.

Cada momento é único, e cada potencial desperdiçado tem um preço a pagar no futuro. Carpe diem, diz o ditado clássico: “aproveita o dia de hoje”. E não se trata de um convite ao prazer de curto prazo. É um lembrete de que mais adiante prestaremos contas, à nossa alma imortal, sobre cada instante jogado fora.

Surgem, então, perguntas nem sempre cômodas.  O que fizemos de mais importante em nossa vida até hoje? Quais são os erros que não queremos cometer de novo? O que pretendemos realizar de positivo no futuro? Nossas metas pessoais são claras e realistas? O que estamos dispostos a sacrificar, de fato, para alcançá-las?

A principal bênção dos dias calmos que rodeiam o Ano Novo é essa possibilidade de reavaliar descansadamente as lições do passado e as possibilidades do futuro.  Ao invés de especular sobre “o que o futuro nos reserva”, como se fôssemos espectadores da nossa própria vida, o mais correto é assumir a direção do processo.  Depois de avaliar o que aprendemos até hoje, devemos perguntar-nos:

“Levando em conta as condições do presente e as tendências para o futuro, o que é possível e desejável criar e realizar nos próximos anos? Quais metas são ao mesmo tempo realistas e audazes?”

Com uma caneta na mão, fazemos planos. Colocamos no papel algumas ações capazes de aumentar radicalmente a qualidade da nossa vida. Entre elas:

*Estar mais atentos a cada instante;

*Abandonar esse ou aquele hábito negativo;

*Cuidar melhor da saúde;

*Dedicar mais tempo à filosofia esotérica;

*Gastar menos recursos materiais;

*Preservar a energia vital;

*Melhorar os relacionamentos pessoais;

*Abandonar atividades que parecem urgentes, mas não são importantes;

*Priorizar atividades que são importantes para nós, embora não pareçam urgentes;

*Agir com altruísmo, o que nos aproxima mais da nossa própria alma imortal.

O passo seguinte é evitar que essas promessas caiam na fossa comum do esquecimento. Será útil avaliar cuidadosamente as nossas forças. Talvez possamos remar contra a correnteza, vencendo a preguiça e outros desafios. Mas há o perigo de que sigamos o caminho mais fácil, abandonando as nobres decisões de um momento inspirado e sendo arrastados águas abaixo pela força da rotina.  O teosofista  Robert Crosbie escreveu:

“Promessas e resoluções nunca nos farão qualquer bem se nós não as sustentarmos. Um mero desejo nunca nos levará a lugar algum. Temos que sustentar o desejo; temos que manter a decisão. Devemos exercitar a nossa vontade e abrir caminho em direção à meta da nossa vontade, o tempo todo.” [1]

Cada pessoa tem seu carma pessoal, isso é, sua própria rede complexa de ações e reações, de causas e conseqüências, a curto, médio e longo prazo. Quando olhado de modo rígido, esse conjunto emaranhado de possibilidades e limitações é chamado de Destino. Na verdade, o carma é um processo aberto a mudanças e depende da maneira como nós reagimos diante dele,  a cada momento e com base em nosso livre-arbítrio.

A filosofia oriental ensina que há três tipos de carma. O carma maduro, que estamos colhendo a cada momento nas situações que nos rodeiam, é Prarabdha. O carma acumulado, que já plantamos mas ainda não amadureceu e não está pronto para ser colhido, é Sanchita. O carma novo, que estamos plantando a cada momento com nossas ações e pensamentos, é Kriyamana.

Dos três, o mais importante é o carma que estamos plantando agora. Porque este é o carma que depende de nós e do nosso livre arbítrio. Não é possível evitar as conseqüências do passado. Mas escolhemos livremente o que plantamos para o futuro, e isso inclui o modo como colhemos o carma maduro. Somos capazes de ver as oportunidades ocultas sob os aparentes obstáculos?

As obrigações e responsabilidades do dia-a-dia correspondem ao nosso carma maduro, prarabdha. Mas sempre é possível abrir caminhos novos, enquanto cumprimos nosso dever. O carma kriyamana – criado de acordo com nosso livre-arbítrio – tem dois aspectos centrais. De um lado, ele é a escolha das ações que começam por livre iniciativa nossa. Mas, por outro lado, ele é a escolha de como enfrentaremos ou aproveitaremos as obrigações, desafios, e  oportunidades que o carma maduro – prarabdha, o “destino” – coloca diante de nós.

Quando fazemos votos de Ano Novo, estamos decidindo sobre aquelas áreas da nossa vida sobre as quais temos uma efetiva liberdade de escolha, e elas são mais numerosas e maiores do que parecem à primeira vista.  Algumas dessas áreas são óbvias, outras são sutis. É conveniente examinar com atenção o que fazemos durante o nosso tempo livre. Porque é nas horas de lazer que temos a oportunidade de criar novas tendências cármicas, mais positivas e renovadoras. Lazer não é sinônimo de ociosidade. Nosso tempo livre tem um potencial sagrado: é o espaço livre para o carma kriyamana .

O que fazer, então, para que as suas promessas de início de ano se transformem em realidade?

O primeiro passo é reconhecer que o propósito da vida é produzir autoaperfeiçoamento, criatividade e paz interior.

O segundo passo é escolher metas bem definidas que dependam de você mesmo. Não decida, por exemplo, que tal ou qual coisa agradável ocorrerá. Isso seria apenas um desejo em relação a fatos que não dependem de você, e, talvez, a fantasia de colher aquilo que você não plantou.

Não tome a decisão de que as outras pessoas serão simpáticas com você, mas resolva que, da sua parte, será amável com elas. Não decida que seu chefe deve lhe dar um aumento salarial, mas tome a decisão de trabalhar com mais afinco e aproveitar melhor as oportunidades profissionais.

Na infância espiritual, ou quando somos psicologicamente infantis, temos uma forte dependência de um “pai salvador” e esperamos que algum deus ou uma figura de autoridade faça tudo por nós. À medida que adotamos uma atitude adulta, aceitamos nossa nossa auto-responsabilidade diante da vida. . Então nossa religiosidade já não se apóia na crença ou na obediência cega, mas na compreensão da unidade e num sentimento de independência solidária. Para o budismo da Terra Pura, por exemplo – um dos mais populares no Japão – Buda Amida não é um mestre individual. Ele é a Luz Eterna e a Vida Infinita. Em uma meditação tradicional dessa seita, cada praticante se considera parte de uma corrente de amor universal que integra o cosmo:

“Sou um elo da Cadeia de Ouro do amor de Buda Amida, que se estende pelo mundo. Devo conservar o meu elo brilhante e forte. Tentarei ter pensamentos belos e puros, dizer palavras belas e puras, e praticar ações belas e puras, porque sei que a minha felicidade ou infelicidade, assim como a felicidade dos outros seres, depende de tudo quanto agora faço. Possa todo elo da Cadeia de Ouro do amor de Buda Amida tornar-se brilhante e forte. Possamos todos nós alcançar a Paz Perfeita.”

Nesta oração, o meditador reconhece que sua felicidade – e, em parte, a felicidade dos outros – depende de tudo quanto ele próprio faz no momento presente. Esta é a lição inevitável do carma kriyamana.  Devemos semear agora aquilo que esperamos colher um dia. O que não se planta, não se colhe. A idéia está intimamente ligada à filosofia de Epicteto, o pensador estóico que viveu no mundo romano, nos séculos 1 e 2 da nossa era. Esse ex-escravo ensinou:

“A felicidade e a liberdade começam com a clara compreensão de um princípio: algumas coisas estão sob nosso controle, e outras não estão. Só depois de aceitar essa regra fundamental e aprender a distinguir entre o que podemos controlar e o que não podemos controlar é que a tranqüilidade interior e a eficácia exterior tornam-se possíveis. Sob nosso controle estão nossas opiniões, aspirações, desejos e a decisão sobre as coisas que nos causam repulsa ou nos desagradam. Essas áreas são justificadamente da nossa conta porque estão sujeitas à nossa influência direta. Temos sempre a possibilidade de escolha quando se trata do conteúdo e da natureza da nossa vida interior.  Fora de nosso controle, entretanto, estão coisas como o tipo de corpo que temos, se nascemos ricos ou se tiramos a sorte grande e enriquecemos de repente, a maneira como somos vistos pelos outros  ou qual é nossa posição na sociedade. Devemos lembrar que essas coisas são externas e, portanto, não dependem de nós. Tentar  controlar ou mudar o que não podemos só resulta em aflição e angústia.”

De fato, a grande fonte de infelicidade, no plano psicológico, está no hábito de gastar energias reagindo contra o que não pode ser alterado, ou manipulando artificialmente aquilo que não está ao nosso alcance e que não podemos controlar de modo natural. Com isso perdemos a oportunidade de fazer aquilo que só depende de nós.

Epicteto acrescenta:

“As coisas sob o nosso poder estão naturalmente à nossa disposição, livres de qualquer restrição ou impedimento. As que não estão, porém, são frágeis, sujeitas a dependência ou determinadas pelos caprichos ou ações dos outros. Lembre-se também do seguinte: se você achar que tem domínio total sobre coisas que estariam, naturalmente, fora do seu controle (…) sua busca será distorcida e você se tornará uma pessoa frustrada, ansiosa e com tendência para criticar os outros.” [2]

Ao definir metas pessoais para o próximo ano, devemos também levar em conta os diversos aspectos da nossa personalidade. O ser humano é um todo complexo. Somos freqüentemente contraditórios. Haverá em nós centros emocionais capazes de promover um “boicote inconsciente” contra as novas decisões? De que modo venceremos a preguiça e o apego à rotina? Como enfrentaremos o desafio da coerência?

O avanço deve ser firme. Evite tomar decisões tão radicais que contrariem o bom-senso, ou que você não consiga manter. É melhor tomar resoluções que você possa colocar em prática desde o primeiro momento, mesmo em pequena escala. “Devagar se vai ao longe”, diz um antigo ditado popular. Pequenos passos viabilizam a caminhada e, com o tempo, irão produzir oportunidades para que passos maiores sejam tomados. As transformações graduais são mais fáceis de administrar.

É oportuno criar práticas diárias simples, viáveis, que reforcem as decisões tomadas. Veja alguns instrumentos utilizados por diferentes pessoas, conforme seu temperamento e inclinação individual:

* Refletir ou meditar diariamente em seu processo de auto-aperfeiçoamento;

* Observar, ao longo do dia, alguns momentos de silêncio e recolhimento mental;

* Manter um caderno de anotações em que são registradas as principais lições da caminhada;

* Reafirmar mentalmente o seu propósito de vida, logo ao acordar, pela manhã, e antes de adormecer, à noite.

A decisão de mudar a rotina exige coragem, determinação e sacrifício. Temos que abrir mão de velhos “rituais” inconscientes de perda de tempo e desperdício de energia, aos quais nos apegávamos.

A renúncia aos velhos hábitos requer austeridade, uma prática espiritual, que pode ser definida como “indiferença em relação à comodidade pessoal”. O nome sânscrito que corresponde a austeridade é tapah (pronúncia: tapas). Este é um dos conceitos mais importantes da tradição esotérica, porque é a sua prática que produz o fortalecimento da vontade própria, sem a qual nada poderíamos fazer de útil na vida.

Tapah não é uma atitude dura ou insensível. A verdadeira austeridade é um sinal externo de que temos uma vontade madura de autoconhecimento, e de que um fogo divino queima o que é negativo em nós, enquanto ilumina o conjunto da nossa consciência. Etimologicamente, a palavra tapah significa “aquilo que brilha como o fogo ou o sol”. A vida ensina que uma pequena dose de austeridade nos liberta de grandes fontes de sofrimento.

Qual é  o segredo, então, para cumprir as promessas de Ano Novo?

Devemos definir com clareza e re-examinar regularmente as nossas metas para o futuro a curto e longo prazo. Devemos trabalhar com calma e criatividade em função delas. Devemos lembrar que a existência de obstáculos é indispensável para o aprendizado.  Ao enfrentar e vencer os desafios, começamos a conhecer, gradualmente, o segredo do êxito na arte de plantar bom carma.

A chave do segredo, para a filosofia oriental, está na combinação correta dos significados profundos de cinco palavras: 1)altruísmo; 2) perseverança; 3) auto-estima; 4) autoconhecimento; e 5) autocontrole.

NOTAS:

[1] “A Book of Quotations From Robert Crosbie”,  Theosophy Co., Mumbai, 108 pp., Índia, p. 5.

[2] “A Arte de Viver”, Epicteto,  versão de Sharon Lebell, Ed. Sextante, RJ, 2000, 160 pp., ver pp. 20-21.

GET-Grupo de Estudos Teosóficos de Florianópolis

Caros amigos, simpatizantes da Sabedoria Divina,
nesse período em que nossos corações se alegram com o momento do Natal,
gostaria de deixar uma mensagem de confiança no processo da Vida,
a partir dos significados da existência do grande protagonista desse momento: o Cristo.
Desejo um Natal especial com a presença da Luz Divina no coração de todos e
que ela se propague no Ano Novo.
Feliz Natal,
Adolfo Kuhn Pfeifer

O DESPERTAR DA LUZ INTERIOR:

Entendendo a natureza transformadora do ministério de Jesus

Raul Branco¹

Podemos perceber um fato novo no seio da família cristã. O fiel que anteriormente parecia satisfeito com suas práticas devocionais tradicionais, agora está buscando o caminho espiritual. O que preocupa as autoridades eclesiásticas, no entanto, é que essa busca está levando um grande número de fiéis para outras tradições, principalmente as orientais.

Ainda que o protestante geralmente conheça intimamente seu livro sagrado, a Bíblia, o mesmo não ocorre com seu irmão católico. Ambos, porém, geralmente desconhecem que a Escritura tem três níveis possíveis de entendimento. A Bíblia, tal como o ser humano, é constituída de corpo, alma e espírito. O “corpo” é o seu significado literal, que não deixa de ser útil a algumas pessoas. A alma são as lições morais a serem derivadas do texto. O espírito está escondido na alegoria, e traz geralmente lições bem diferentes das percebidas no sentido literal.

Como as chaves da interpretação da Bíblia, que permitem desvelar o espírito da Escritura, não estavam até recentemente ao alcance do grande público², o véu da simbologia e os aparentes absurdos de certas passagens do texto bíblico fazem com que muitas pessoas simplesmente desistam de tentar entender a verdadeira natureza dos profundos ensinamentos que ali se encontram. Este artigo é uma tentativa de apresentar a natureza transformadora do ministério de Jesus. O primeiro passo para isso é entender o ponto central de toda Sua pregação, o Reino.

O REINO DOS CÉUS

Os teólogos e estudiosos do cristianismo são unânimes em concordar que todo o ministério de Jesus girou em torno do “Reino”, referido em Mateus e João como o Reino dos Céus, em Marcos e Lucas como o Reino de Deus, em Tomé como o Reino do Pai, e também em João como a Vida Eterna. Como esses diferentes termos parecem indicar mais uma preferência dos autores daqueles evangelhos do que de Jesus, serão todos usados como sinônimos para o mesmo conceito.

Jesus, o pedagogo divino, usava as palavras com extrema habilidade para tocar a alma de seus ouvintes. A escolha do termo “Reino” é mais um exemplo dessa habilidade. Para os judeus, que viviam há várias gerações sob o jugo da dominação estrangeira, o “Reino” era uma palavra doce e alvissareira, evocando a esperança de dias melhores em que teriam mais uma vez um Reino governado por Reis judeus, como Davi e Salomão. O Messias tão esperado seria o instrumento divino para o estabelecimento daquele Reino. A menção de Reino de Deus ou Reino dos Céus eletrizava os ouvintes, que projetavam seus anseios naquele “Reino” sobre o qual Jesus falava, sem apresentar uma definição precisa de sua natureza.

O primeiro passo de um pedagogo é prender a atenção de seus ouvintes. O segundo é fazê-los pensar e chegar a suas próprias conclusões. A forma como Jesus falava, por parábolas, servindo-se de imagens da vida cotidiana de seus ouvintes, prestava-se maravilhosamente para esse fim

A passagem chave sobre o “Reino dos Céus” é atribuída a João Batista, e encontra-se logo no início do Evangelho de Mateus. Essa passagem lapidar gerou uma triste confusão na maior parte dos leigos e teólogos sobre o verdadeiro significado do Reino. As palavras de João, como chegaram a nós, foram: “Arrependei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo” (Mt 3:2). A razão da confusão explica-se, em parte, pela tradução inapropriada da primeira palavra, o que dificultou o entendimento do verdadeiro sentido espiritual da mensagem.

A palavra traduzida como “arrependei-vos”, que no original grego derivava de metanoia, tinha uma rica conotação, pois significava transformação dos estados mentais advinda do entendimento dos fatores que haviam levado ao pensamento ou ação errônea inicial. Com a tradução do termo como “arrependimento” a conotação que passou a ser dada para essa passagem é a de “culpa por transgressões anteriores” e não de “transformação interior devida ao entendimento dos fatores envolvidos”. A tradução foi extremamente infeliz porque desvirtuou a passagem e contribuiu para que, ao longo dos séculos, os cristãos desenvolvessem um sentimento negativo e apático de culpa em vez da atitude positiva desejada de transformação. Essa postura induziu, ademais, a uma interpretação errônea do “Reino dos Céus”, que passou a se identificar com um lugar a ser atingido por aqueles que se arrependessem de seus pecados.

A expressão “o Reino dos Céus” também não foi devidamente compreendida. O povo judeu, antes de ser tocado pelo sentido espiritual da mensagem do Mestre, imaginava que Jesus estivesse prometendo aquilo que eles ansiavam ardentemente, um reino de Jeová na Terra, com os judeus, como povo eleito de Deus, governando toda a humanidade. Esse materialismo espiritual deu, mais tarde, o colorido para as interpretações das comunidades cristãs, agora com Jesus, após seu esperado retorno (parusia) glorioso à Terra, governando sobre todos os homens. Apesar de Jesus ter dito enfaticamente que seu reino não era deste mundo (Jo 18:36), ainda perdura até hoje uma conotação materialista para o Reino de Deus na maior parte dos tratados teológicos.

Mas o que seria então o Reino de Deus? Jesus nos ensinava, com seu método peculiar, que o Reino de Deus existe onde Deus impera, ou seja, na consciência daqueles que estão voltados para Deus. Fica claro que o Reino não é propriamente um lugar, pois se encontra em nosso interior (Lc 17:20-21). Como nos foi dito que na Casa do Pai há muitas moradas (Jo 14:2), podemos inferir que existem vários níveis hierárquicos dentro do Reino dos Céus, simbolizado pela escada de Jacó (Gn 28:12) estendendo-se da terra ao céu (cada degrau da escada simboliza um nível de realização espiritual). Assim, podemos concluir que o Reino de Deus é um estado de crescente sintonia com Deus, que nos leva progressivamente a senti-lo em nosso coração, a termos visões de Sua Luz, de comungarmos com Ele e, finalmente, alcançarmos a meta de nos fundirmos Nele, como atestam milhares de místicos ao longo dos séculos.

Muitos autores descrevem o Reino dos Céus como um estado de união com Deus, no qual existe uma profunda paz, bem-aventurança inconcebível, conhecimento verdadeiro da natureza de todas as coisas e, enfim, um estado celestial que os místicos tentam em vão descrever. Essa união, no entanto, é a meta final no conjunto de realizações espirituais crescentes que expressam os estágios iniciais e intermediários da consciência do Reino. Por outro lado, nem todos os que crêem estar voltados para Deus realmente atingiram a consciência do Reino. A sintonia com Deus dá-se, inicialmente, a nível da mente lógica, ou seja, ao nível da mente de nossa natureza inferior. Somente quando o Cristo interior nasce, quando a sensibilidade intuitiva do indivíduo desperta, é que, num sentido mais estrito, inicia-se a consciência do Reino de Deus. O apóstolo Paulo deixou claro esta verdade ao falar a respeito de seu ministério entre os gentios: “A estes quis Deus tornar conhecida qual é entre os gentios a riqueza da glória deste mistério, que é Cristo em vós, a esperança da glória” (Cl 1:27)

Os evangelhos apresentam essa profunda verdade de forma simbólica. É dito que João Batista é o precursor do Cristo (Mt 3:1-12), portanto um importante mensageiro divino. Mas Jesus nos surpreende ao declarar que, dentre os nascidos de mulher, nenhum é superior a João, no entanto, o menor no Reino dos Céus é maior do que ele (Mt 11:11). Essa passagem deve ser entendida no seu sentido simbólico. João, o precursor, simboliza a mente concreta (um aspecto da natureza inferior, portanto, nascida de mulher), enquanto o menor no Reino (referido como uma criancinha) é aquele em quem acaba de despertar o Cristo interior, descrito no relato bíblico como o evento histórico do nascimento do Cristo. Assim a vida de Jesus pode ser entendida como a expressão figurada dos cinco grandes marcos da entrada e do progresso no Reino dos Céus, ou iniciações: o nascimento, o batismo, a comunhão, a morte e ressurreição e, finalmente, a ascensão ao Céu, a culminação de todo o processo.

Voltando à passagem inicial sobre o Reino dos Céus, a proximidade a que se refere Mateus não é também a proximidade temporal. Aqueles que achavam que o Reino seria estabelecido em breve, com o retorno do Senhor, ficaram desapontados, pois, com o passar dos tempos, o desfecho apocalíptico esperado não ocorreu. Com isso mudou-se a ênfase. O Reino viria então no fim dos tempos, e muitos ainda acreditam que esse tipo de reino está próximo.

Quando nos lembramos que o Reino é o estado de consciência de crescente sintonia com Deus, percebemos que ele está ao alcance, ou seja, está próximo de todo aquele que passa por uma radical transformação interior. Visto sob esse prisma, o caminho que leva ao Reino é o Caminho da Perfeição. Quanto mais sintonizados estamos com Deus, mais refletimos em nossa vida os atributos de nossa natureza divina essencial. É por isso que Jesus dizia: “Deveis ser perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5:48). Jesus certamente não se referia a um Pai celeste longínquo e inacessível, mas sim à nossa natureza divina interior que anseia manifestar-se por nosso intermédio. Deus precisa da cooperação do homem para completar sua obra na Terra.

A passagem inicial de João Batista sobre o Reino poderia ser traduzida como: “Transformai a vossa natureza interior, pois dessa forma alcançareis a sintonia com Deus, que é bem aventurança, paz e amor”. Jesus, ao pregar o Reino, estava nos convidando a efetuarmos uma mudança de estado mental, que se refletisse em nossos sentimentos e no comportamento exterior. Mas Jesus não só nos convidou a entrarmos com Ele no Reino, mas procurou ensinar-nos como efetuar essa transformação interior.
+ A natureza do ministério de Jesus

Jesus, a compaixão personificada, procurava ajudar de alguma forma a todos seus ouvintes e os que o procuravam. As inúmeras curas milagrosas relatadas na Bíblia provavelmente são uma amostra parcial de sua atuação compassiva no mundo procurando aliviar o sofrimento de seu povo. Mas Jesus sabia que as doenças do corpo e da alma são efeitos gerados por causas ativadas no passado, sob a ação da inevitável lei da retribuição universal, também conhecida como lei de causa e efeito, ou carma. Seu objetivo não era meramente aliviar o sofrimento cuidando dos efeitos, mas ensinar os homens a promover sua própria cura, por meio de uma vida reta, em harmonia com o plano divino. A atuação sobre as causas do sofrimento demanda, porém, que o homem mude de vida, daí a natureza transformadora de seu ministério.

Mas a transformação interior do homem, como todos os processos da natureza, deve seguir a Lei divina. Se Deus concedeu o livre arbítrio ao ser humano, essa liberdade de escolha e de ação tinha de ser levada em consideração por Jesus. A mudança não podia ser forçada. Seus ouvintes naquele tempo na Palestina, como seus seguidores nos dias de hoje, precisavam ser tocados em seus corações, para então serem motivados a transformar sua vida.

Jesus sabia que o ser humano, principalmente os que vivem em sociedades tradicionais, tendem a ser conservadores e a seguir padrões e valores de sua tradição. A sociedade judaica era especialmente conservadora. Praticamente todos os aspectos da vida diária do povo eram regidos pelos 613 preceitos da Lei Mosaica. Como a Lei estabelecia tudo o que era proibido fazer, assim como as ações que o praticante devia realizar, o judeu ortodoxo era condicionado desde cedo a obedecer a Lei. Mesmo quando a estrita obediência àquela Lei levava a aparentes absurdos ou injustiças, em vez de seguir seu discernimento ou os ditames da compaixão, ele se refugiava na letra morta da Lei Mosaica, sem se importar com as conseqüências de seus atos, confiante de que estava agradando a Deus.

Se essa obediência cega aos preceitos tradicionais fosse suficiente para o aperfeiçoamento do homem, na Palestina de há dois mil anos, como em nosso mundo moderno, Jesus não teria sido chamado a encarnar-se em nossa Terra, pois o Paraíso já teria sido reconquistado não havendo mais necessidade de um Salvador. Mas os profetas antes de Jesus repetidamente alertaram que o povo precisava mudar. E a mudança preconizada não significava simplesmente uma obediência mais rigorosa aos preceitos mosaicos, mas sim agir com compaixão e discernimento, como expressa o profeta: “Porque é compaixão que eu quero e não sacrifício, conhecimento de Deus mais do que holocaustos” (Os 6:6).

A evolução da família humana ocorre da mesma forma como a do ser humano individual. A criança, para a sua proteção, precisa aprender a obedecer seus pais e mentores até alcançar a idade de pensar por sua própria conta. Na juventude e na vida adulta deve desenvolver o discernimento, para verdadeiramente exercer sua liberdade de forma criativa e harmônica. O discernimento é o aprimoramento da mente racional, isto é, da mente concreta altamente desenvolvida, que foi simbolizada por João Batista, o precursor do Cristo. Porém, o estágio mais elevado da evolução humana ocorre quando nasce o Cristo interior, ou seja, quando o homem começa a perceber a verdade de forma intuitiva, diretamente, e não através da mente lógica. Paulo refere-se a esse nascimento em linguagem poética: “Meus filhos, por quem eu sofro de novo as dores do parto, até que Cristo seja formado em vós” (Gl 4:19).

O conceito de intuição em nossa sociedade é geralmente associado a uma certa irracionalidade, a uma percepção geralmente feminina inexplicável, tendo portanto uma conotação um tanto pejorativa em nosso mundo que sobrevaloriza a lógica formal aristotélica. No entanto, a intuição é uma capacidade altamente elevada, que transcende a objetividade da mente lógica, sem qualquer contradição com o discernimento. Na verdade, a intuição, a luz do Cristo interior, traz-nos verdades que estão além do alcance da mente. As grandes descobertas dos cientistas e sábios são, via de regra, resultado de vislumbres intuitivos.

Se o discernimento caracteriza a vida do adulto amadurecido, a intuição distingue a do sábio. A expressão basilar de Jesus: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” tem um alcance bem mais profundo do que geralmente imaginamos. Jesus não se referia meramente àquilo que achamos ser a verdade em termos de nossos padrões tradicionais. Não era a “verdade” na forma dos conceitos ensinados externamente pela família e a sociedade.3 A verdade libertadora a que se referia Jesus era a verdade interior, a verdade sem mácula, muitas vezes com implicações surpreendentes, que surgia do fundo do coração, do Cristo interior. Por isso Jesus disse: “Quando vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à verdade plena, pois não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará as coisas futuras” (Jo 16:13).

O ministério de Jesus visava ajudar a todas as pessoas, cada qual a seu modo. Além de consolo e esperança para os sofredores, o Mestre procurava facilitar o avanço de seu povo da etapa “infantil” de mera obediência, para desenvolver o discernimento e, no caso de seus discípulos avançados, despertar a luz interior da percepção direta da verdade. Fica claro, portanto, por que Jesus, diante da natural muralha dos condicionamentos de seus ouvintes, precisava usar de linguagem contundente, na prática uma terapia de choque, ainda que respeitando a liberdade de pensamento de seu povo sofrido. Com suas parábolas que concluíam o inesperado, com seus ditados chocantes, com sua linguagem hiperbólica, Jesus conseguia despertar a atenção de seus ouvintes e inserir uma semente de dúvida, de contestação de conceitos ultrapassados ou de retórica em suas mentes, forçando-os a pensar.

É bem verdade que nem todos eram tocados. O destino de suas palavras era semelhante às sementes do semeador de sua parábola (Mt 13:4-9), muitas não vingavam porque caiam à beira do caminho, em lugares pedregosos e entre os espinhos, mas algumas, felizmente, caiam em terra fértil. Na prática, as pessoas que permitem a germinação da palavra divina são as que têm a mente aberta e o coração sensível.

Um ser divino age como o sol, iluminando a justos e pecadores, aquecendo a simpatizantes e a inimigos. Assim, Jesus distribuía suas benções a todos seus ouvintes, apresentava as verdades eternas a seus discípulos diletos e ao povo despreparado. Nesse caso, no entanto, sabendo que algumas dessas verdades profundas podiam ser mal utilizadas pelos egoístas e ambiciosos, era forçado a velar seus ensinamentos públicos em parábolas e ditados simbólicos, os quais podiam ser compreendidos pelos iniciados de todos os tempos.

Levando em consideração a complexa natureza do ser humano, Jesus concebeu seu ministério transformador atuando por meio de três grandes conjuntos de medidas. Em primeiro lugar seus ensinamentos, em segundo uma vida ética e, finalmente, as práticas e rituais espirituais. Esses conjuntos de medidas eram organicamente interdependentes. Não era possível progredir muito somente ouvindo e memorizando os ensinamentos. Era imprescindível incorporá-los à vida diária, pois, conforme Ele mesmo disse: “todo aquele que ouve essas minhas palavras e as põe em prática será comparado a um homem sensato que construiu a sua casa sobre a rocha” (Mt 7:24). Tiago, seu irmão, ecoando os ensinamentos do Mestre foi ainda mais direto: “Tornai-vos praticantes da palavra, e não simples ouvintes, enganando-vos a vós mesmos!” (Ti 1:22). A prática dos ensinamentos levava a uma vida ética, ou seja, a uma progressiva purificação. A purificação, por sua vez, tornava possível o acesso a certas práticas e rituais que aceleravam a expansão da consciência que, para completar o ciclo, permitia um maior e mais profundo entendimento dos ensinamentos do Mestre. Os três elementos do ministério de Jesus interagiam, retro alimentando-se  e criando uma espiral de progresso constante.

A Figura a seguir oferece uma imagem desta interação do ministério de Jesus. O leitor atento perceberá que existe um paralelo entre os três conjuntos de medidas: ensinamentos, ética e rituais, e os três aspectos da natureza divina: sabedoria, amor e poder. Os ensinamentos levam à sabedoria, a ética superior é a expressão do amor e os rituais e práticas conferem poder espiritual.

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Assim como um avião precisa atingir uma certa velocidade antes de alçar vôo, o discípulo também precisava de um mínimo de sintonia com Deus para alcançar os primeiros níveis do Reino dos Céus. Ele deveria ter um mínimo de compreensão dos ensinamentos do Mestre, além de certo nível de purificação expresso por uma vida ética e o acesso a certas práticas e rituais.
# MAIS DETALHES SOBRE Os Ensinamentos de Jesus

Podemos imaginar as palavras de Jesus como sementes que caíam na alma de seus ouvintes. Se a alma estivesse aberta, seria um solo fértil. Nesse solo as sementes deviam ser cultivadas por uma vida ética e regadas por práticas e rituais espirituais, por bom tempo, para que pudessem germinar, tornar-se árvores e, na estação apropriada, darem frutos. Esses frutos conteriam, por sua vez, novas sementes para continuar o trabalho divino de propagação da verdade redentora.

Visto sob outro ângulo, as palavras de Jesus eram o começo, o meio e o fim. Davam início ao processo de despertar espiritual daquelas almas; proporcionavam os meios pelos quais seus discípulos eram instruídos; e culminavam com a expressão de sabedoria e de unidade com o Pai, que era o objetivo final da obra, como dito por Jesus e até hoje pouco entendido por seus ouvintes: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10:30).

Havia entre os judeus uma profunda crença que eles eram o povo eleito de Deus, pois Jeová teria prometido a Abraão que seus descendentes seriam numerosos e teriam o domínio sobre todos os povos da Terra. Em contrapartida deviam obedecer os preceitos da Lei, para que continuassem a receber as bênçãos e a proteção divina. Esse condicionamento social explicava o extremo grau de conservadorismo do povo judeu e a natural relutância em aceitar idéias em conflito com suas crenças religiosas.

Jesus precisava, portanto, abrir espaço para novas idéias, para novas interpretações das verdades eternas que, com o tempo, foram sendo relegadas a segundo plano, quando não esquecidas pelos judeus. Uma taça cheia de água não pode ser preenchida com vinho novo. A taça deve ser primeiramente esvaziada para só depois ser enchida. A dádiva do conhecimento divino requeria um esvaziamento da mente atulhada de preconceitos, processo esse apropriadamente referido pelos místicos da tradição cristã como esvaziamento (kenosis).

O divino pedagogo utilizou um método eficaz para proceder a esse esvaziamento. Foi uma terapia de choque, de contestação dos valores centrais da tradição judaica. As crenças sobre a observância do sábado (o dia de descanso em que nenhum tipo de trabalho deveria ser realizado), os rituais de purificação e as limitações à comensalidade foram os principais alvos. A razão por trás destas críticas de Jesus era invariavelmente o conflito entre a prática da letra da lei e o exercício da compaixão. Assim, Jesus curava os sofredores que o procuravam até mesmo no sábado. Por exemplo, Jesus curou uma mulher “possuída havia dezoito anos por um espírito que a tornava enferma: estava inteiramente recurvada e não podia de modo algum endireitar-se” (Lc 13:11). O chefe da sinagoga indignou-se por Jesus ter feito a cura no sábado. O Mestre contestou duramente aquela posição: “Hipócritas! Cada um de vós, no sábado, não solta seu boi ou seu asno do estábulo para levá-lo a beber? E esta filha de Abraão que Satanás prendeu há dezoito anos, não convinha soltá-la no dia de sábado?” (Lc 13:15-16).

Os fariseus e escribas censuraram Jesus e seus discípulos por não darem a devida atenção ao ritual de abluções com a quantidade preestabelecida de água antes das refeições. Jesus aproveitou a oportunidade para dar um ensinamento sobre as prioridades na vida do ser humano. Ainda que a limpeza das mãos seja importante para manter o corpo saudável, mais importante ainda são as palavras maliciosas, inverídicas ou maldosas, que causam muito mais danos, pois atingem a alma. Jesus, porém, transmitiu esse ensinamento de forma contundente: “Não é o que entra pela boca que torna o homem impuro, mas o que sai da boca, isto sim o torna impuro” (Mt 15:11).

O fato de Jesus aceitar comer com publicanos (coletores de impostos) e notórios pecadores era muito criticado pelos fariseus. Jesus, no entanto, explicou a razão porque ignorava as doutrinas tradicionais: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os doentes. Eu não vim chamar justos, mas pecadores” (Mc 2:17). Ademais, a cena de Jesus sentado à mesa com seus discípulos e os párias da sociedade judaica parece ter um profundo sentido alegórico. A casa onde ocorre a refeição simboliza o corpo humano. Jesus representa o princípio divino no homem, e seus discípulos os atributos e as qualidades mais elevadas da mente. Publicanos e pecadores expressam os aspectos da natureza inferior, tais como egoísmo, ganância, orgulho e sensualidade. A interação do princípio divino aliado aos atributos superiores da mente com os aspectos da natureza inferior, simbolizada pela refeição compartilhada, promove a regeneração e a transformação do homem comum. Essa integração do superior com o inferior, é o processo pelo qual ocorre a mudança de orientação do material para o espiritual.

Por meio de inúmeras passagens de teor semelhante, Jesus forçava seus ouvintes a pensar sobre os verdadeiros valores da vida e, com isso, a redirecionar sua atenção dos rituais externos de purificação e propiciação para o que é mais importante na vida do ser humano, a compaixão para com os que sofrem. Seguindo a tradição dos profetas, Jesus reiterou o ensinamento divino: “Misericórdia é o que eu quero e não sacrifício” (Mt 12:7).

Jesus sempre criticou a obediência cega aos preceitos externos sem entendimento e, principalmente, sem a devida atitude de compaixão. Se acreditamos que a mensagem de Jesus também foi dirigida ao mundo moderno, devemos, por coerência, estender a atitude de avaliação crítica de Jesus para a grande família cristã atual. Observando nossa vida diária, o Mestre poderia concluir que nosso comportamento realmente reflete nossas crenças religiosas? Os fariseus e levitas atuais estão mais envolvidos na divulgação e na prática dos ensinamentos do Mestre ou na preservação de suas instituições? Será que o cristão atual, apesar dos avanços da ciência e do aprimoramento do nível educacional, está menos sujeito a condicionamentos limitativos para a compreensão dos mistérios divinos? O cristão esclarecido atual estaria aberto a interpretação simbólica dos ensinamentos de Jesus, como seus discípulos originais, ou só estaria capacitado a aceitá-los no seu sentido literal, como o povo palestino, ‘os muitos’, de então?

Podemos testar a nossa atitude sobre esse último ponto examinando as quatro chaves conhecidas para a interpretação bíblica, que foram sistematizadas e divulgadas em nosso século pelo grande estudioso Geoffrey Hodson4 e que resumimos da seguinte forma:

1. Todos os eventos registrados, supostamente históricos, também ocorrem interiormente. Cada evento descreve uma experiência subjetiva do homem.

2. Cada pessoa que figura proeminentemente na história representa uma condição da consciência e uma qualidade de caráter.

3. Cada história é considerada como descrição da experiência da alma ao passar por certas fases da jornada evolutiva para a terra prometida.

4. Todos os objetos e certas palavras têm significado simbólico especial.

Só  quando o cristão busca entender a mensagem subjacente nos textos sagrados, usando essas chaves para sua interpretação, é que começa, então, a despertar para a beleza e a profundidade dos ensinamentos redentores. Por exemplo, a expressão “montanha” é geralmente usada como símbolo de um estado de consciência elevado. Assim, o Sermão da Montanha não teria sido dado num ponto geográfico elevado, mas sim num estado de consciência elevado a que Jesus teria induzido seus discípulos. Da mesma forma, quando Moisés sobe ao Monte Sinai, o que ocorre é que ele está ascendendo a um nível de consciência que lhe permite receber os Mandamentos de Deus. O entendimento das passagens bíblicas muda inteiramente quando vemos um monte ou montanha não como um acidente geográfico mas como um estado interior elevado.

Um trecho da Bíblia que muitos julgam estranho é a entrada messiânica de Jesus em Jerusalém montando num jumentinho (Mc 11:1-11). No sentido literal a passagem parece, no mínimo, fora de contexto, ou mesmo desnecessária. Porém, ela contém um ensinamento oculto, dado diretamente aos discípulos, mas transmitido ao povo sob o véu da alegoria. No sentido simbólico, Jesus representa a natureza divina no homem. Jerusalém, a Cidade Sagrada, representa o Reino de Deus. O homem real, sua natureza superior, só pode entrar no Reino de Deus quando está usando sua natureza inferior, representada pelo jumentinho. O jumento é um quadrúpede, portanto um símbolo adequado para o quaternário inferior do homem, ou seja, seus corpos físico, energético (ou etérico), emocional (ou astral) e mental concreto. Mas a natureza inferior, a personalidade, deve ser uma montaria perfeitamente domesticada, ou seja, que tenha sido treinada à perfeição para servir prontamente aos comandos do Senhor, o Cristo interior. Quando isso ocorre o homem entra no Reino dos Céus.

A maior parte das passagens bíblicas prestam-se a interpretações desse gênero, conferindo uma visão mais ampla aos que ousam buscar o sentido do espírito que vivifica e abandonar a letra que mata (II Co 3:6). Jesus sempre  procurou estimular o discernimento da mente e a abertura do coração para os lampejos do espírito.

No entanto, o método de constante questionamento adotado por Jesus pode ser causa de atritos com aqueles que nos são mais caros, como nossos familiares, amigos e mentores. Um exemplo flagrante disso está indicado na passagem em que Jesus é apresentado como dando motivo a divisões e discórdias: “Não penseis que vim trazer paz à terra. Não vim trazer paz, mas espada. Com efeito, vim contrapor o homem ao seu pai, a filha à sua mãe e a nora à sua sogra. Em suma: os inimigos do homem serão os seus próprios familiares” (Mt. 10:34-36). Essa passagem também pode ser interpretada com as chaves indicadas, sugerindo que a palavra divina, Cristo, vai contrapor o homem (o verdadeiro ser, a alma) a seu pai e a sua mãe, ou seja, a sua natureza material. Os familiares, unidos por seus laços sangüíneos, simbolizam as tendências materiais e egoístas da personalidade, portanto, os inimigos do verdadeiro homem, a alma.
* Vida ética

O ser humano inicia sua vida no núcleo familiar e desenvolve-se dentro de um grupo maior que, por sua vez, faz parte da grande família humana. A vida do ser humano no mundo envolve constantes relacionamentos e interações. Dentro dessa realidade de interdependência de todos os seres que compõem nosso mundo exterior, a ética determina as normas que devem reger as relações entre os membros da sociedade para assegurar seu bem estar. Na medida em que o homem vive de acordo com a ética, ele está contribuindo para a harmonia no mundo e, portanto, está em sintonia com o Plano de Deus. Nesse sentido, o homem perfeito, é aquele que alcançou a mais elevada sintonia com Deus, referida por Paulo, como a medida da estatura da plenitude do Cristo (Ef 4:13).

A realidade, porém, é que o homem geralmente não percebe e, portanto, não segue a orientação de sua natureza superior que é a expressão de Deus imanente nele, sendo, por isso mesmo, a personificação da mais profunda sabedoria e compaixão. Quando a ação do homem é contrária à ética ditada pelo divino habitante do recôndito, ele gera infelicidade para si mesmo e cria desarmonia dentro do grande organismo da vida. Essa vibração dissonante pode ser vista como uma impureza que se origina no homem e afeta o Todo. A vida ética, portanto, eqüivale a um processo de purificação do indivíduo de todas suas vibrações dissonantes com o Plano Divino. A recíproca também é verdadeira, ou seja, toda prática de purificação contribui para elevar o padrão ético do indivíduo.

Jesus oferecia ajuda às pessoas em todos os estágios do caminho. Para o povo em geral, a primeira etapa da vida ética era aprender a não fazer o mal. Os dez mandamentos de Moisés eram o ponto de partida. Jesus, porém, pregava um enfoque mais radical. Não bastava não fazer a coisa errada, era preciso também não pensar e desejar o errado. O aprimoramento pregado por Jesus incluía além da inibição das más ações, a elevação do estado mental e emocional, bem como a purificação das intenções. Os exemplos clássicos desse aprofundamento encontram-se em sua prédica sobre o assassinato e o adultério.

Vale a pena recordar suas palavras: “Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; aquele que matar terá de responder no tribunal. Eu, porém, vos digo: todo aquele que se encolerizar contra seu irmão, terá de responder no tribunal; aquele que chamar ao seu irmão ‘Cretino’ estará sujeito ao julgamento do Sinédrio; aquele que lhe chamar ‘Louco’ terá de responder na geena de fogo” (Mt 5:21-22). Jesus deixa claro, portanto, que os sentimentos de cólera e as palavras ofensivas estão na mesma categoria dos ataques contra a vida do ser humano.

O mesmo enfoque é dado para as relações sexuais ilícitas. “Ouvistes que foi dito: Não cometerás adultério. Eu, porém, vos digo: todo aquele que olha para uma mulher com desejo libidinoso já cometeu adultério com ela em seu coração” (Mt 5:27-28). O pensamento é colocado claramente no mesmo nível que a ação de adultério. Como toda ação começa com um pensamento, devemos aprender a agir sobre a raiz do mal e não apenas sobre sua expressão exterior.

Devemos, nesse ponto, recordar a pregação fundamental sobre o Reino em que somos instados a mudar nossos estados mentais. Se examinarmos os evangelhos com atenção, veremos que todo o ministério de Jesus estava voltado para a mudança de nossa mente e do nosso coração. Num sentido mais amplo, Jesus estava procurando mudar a orientação de nossa natureza interior, incluindo sentimentos, pensamentos e percepções, do mundo material para o espiritual.

Quando o indivíduo cessa de fazer o mal pode, então, começar a aprender a fazer o bem. Seus ensinamentos e prédicas contra o desejo de vingança, que contrastam nitidamente com a prática da tradição judaica, estão nessa categoria. “Ouviste que foi dito: Olho por olho e dente por dente. Eu, porém, vos digo: não resistais ao homem mau; antes, àquele que te fere na face direita oferece-lhe também a esquerda; e àquele que quer pleitear contigo, para tomar-te a túnica, deixa-lhe também a veste” (Mt 5:38-40).

Chegamos, agora, ao pináculo do comportamento ético: “Ouviste que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5:43-44). E Jesus explica a razão para essa mudança radical no comportamento tradicional de seu povo: “Desse modo vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz nascer o seu sol igualmente sobre maus e bons e cair a chuva sobre justos e injustos. Com efeito, se amais aos que vos amam, que recompensa tendes: Não fazem também os publicanos a mesma coisa? E se saudais apenas os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem também os gentios a mesma coisa?” (Mt 5:45-47).

Jesus conclui essa pregação lembrando o objetivo supremo de nossa vida na terra, alcançar o Reino dos Céus: “Portanto, deveis ser perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5:48). A vida ética é o próprio caminho da perfeição. Essa perfeição está ao alcance de quem transcende sua natureza humana, morrendo para o mundo para renascer para Deus. Quando isso ocorre, o fiel pode dizer, como Paulo: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2:20).

A transição para a moral superior, em que o discípulo aprende a fazer o bem, começa quando o amor passa a orientar sua vida. Mas amar significa doar. A doação requer uma atitude altruísta em que o centro de atenção é retirado do eu e colocado no outro. O cerne da transformação do ser humano, o altruísmo, é conseqüência natural da renúncia ao eu.

Seus discípulos eram instados a adotar uma postura ativa e não meramente de crer na pessoa ou nas palavras do Salvador. Deviam aguçar a mente, abrir o coração, agir com discernimento e compaixão, e procurar seguir o exemplo do Mestre em tudo. Essa era a essência da purificação implícita numa vida ética. Compreendemos, assim, porque Jesus disse: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e siga-me” (Lc 9:23).

Esse ditado carece de mais atenção. Como Jesus usava a simbologia sagrada em seus ensinamentos públicos, o primeiro postulado “Se alguém quer vir após mim” significa ir além do estado de consciência de Cristo, o Filho, e alcançar o Pai. Esse é o objetivo último do caminho espiritual, a união com o Pai, que Jesus afirma ser possível. Mas para isso o discípulo deve, em primeiro lugar, renunciar a si mesmo. A simplicidade dessas palavras esconde a enorme dificuldade dessa realização. Elas não significam simplesmente a renúncia aos bens terrenos, o que por si só afasta a maior parte dos aspirantes, como sucedeu com o moço rico que perguntou a Jesus como alcançar a vida eterna (Mt 19:16-22). Significam, na verdade, renunciar ao que acreditamos ser a coisa mais importante em nossa vida, a nossa noção de individualidade e independência. O auto-centrismo que rege nossas vidas nesse mundo deve ser abandonado.

O centro de nossa vida passa a ser Deus: “Amarás o Senhor teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, com toda a tua força e de todo o teu entendimento” (Lc 10:27). Essa é a suprema renúncia, que leva até mesmo os grandes santos a imensos conflitos interiores e a momentos de indescritível angústia, como relatado por João da Cruz em sua obra A Noite Escura da Alma.

Além de renunciarmos a nós mesmos, devemos tomar a nossa cruz todos os dias e então segui-lo. O que significa tomar a nossa cruz? Significa aceitarmos o fardo da providência divina, conseqüência de nossos atos anteriores, da lei de causa e efeito. Esse alerta é importante para que alguns aspirantes ao caminho da perfeição não cometam o erro de pensar que renunciar a si mesmo significa renunciar seus compromissos neste mundo. O renunciante não é chamado a abandonar sua família e outras obrigações. A renúncia é uma atitude interior. A vida exterior pode permanecer praticamente a mesma quando a renúncia interior ocorre. A diferença é que tudo passa a ser feito em benefício do Plano Divino e não mais para nosso próprio interesse. Assim, devemos viver no mundo sem ser do mundo. O Divino Mestre nos ensinou que a motivação é o fator primordial da vida e deve orientar nossos esforços e qualificar o resultado de nossas ações. Por isto foi dito: “onde está o teu tesouro aí está o teu coração” (Mt 6:21).

Resumindo, Jesus nos ensinou que devemos renunciar a nós mesmos para alcançarmos o estado beatífico de união com o Pai e, dentro dos limites impostos por nossas obrigações e limitações, devemos dedicar toda a nossa energia e aspiração a seguir o Mestre. Mas o que seria seguir o Mestre? Certamente não era a mera postura passiva de andar atrás do homem Jesus, seguindo-o fisicamente. A exortação é certamente a de seguir-se o modo de vida de Jesus. Somos instados a uma mudança interior que nos possibilite entrar na consciência do Reino e viver inteiramente para o serviço à humanidade, sem nenhuma ambição a não ser de nos tornarmos um instrumento cada vez mais eficiente na seara do Senhor.

O discípulo que procura seguir o Mestre rege sua vida pelo amor. Ele ama seu próximo como a si mesmo. Isso quer dizer que o amor a si mesmo deve ser o marco referencial para o amor ao próximo. Mas amar a si mesmo não seria egoísmo, o contrário da vida altruísta de um discípulo? Somente aqueles que sabem o que é o verdadeiro “amor a si mesmo” podem alcançar esse estágio. Não se trata mais de amar nossa personalidade, nossa natureza inferior, com seus intermináveis desejos e apegos ao mundo. O verdadeiro “si mesmo”, que os anglo-saxões chamam de “self”, é o verdadeiro ser humano, a natureza superior, o Cristo interno. Quando nos identificamos com nossa natureza superior, não de forma meramente intelectual mas como expressão consciente de todo nosso ser, o comportamento altruísta passa a ser perfeitamente natural para nós. A partir de então, passamos verdadeiramente a amar nosso próximo como a nós mesmos. Essa é a atitude de todos os grandes servidores da humanidade. Quando perguntaram a Madre Teresa como ela podia tratar com tanto amor a todos os indigentes em seus albergues em Calcutá, ela respondeu que não lhe era possível amar pessoalmente a cada uma daquelas pessoas, mas que amava a Cristo no interior de cada uma delas.

Para deixar claro que a nova ética que leva ao Reino requer uma atitude ativa de procurar fazer o bem e não meramente de não fazer o mal, como pregavam os antigos (Tb 4:15), Jesus reverte a Regra de Ouro: “Tudo aquilo, portanto, que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles, pois esta é a Lei e os Profetas” (Mt 7:12).
o Práticas espirituais e rituais

Poderíamos imaginar o conjunto de ensinamentos de Jesus como as instruções para a fabricação de um instrumento musical, a vida ética como a metódica tarefa de construção do instrumento e as práticas espirituais como o processo em que o músico começa a testar sistematicamente o instrumento até soar sua nota perfeita que se integrará na sinfonia das esferas. Deus é o Supremo Maestro que rege uma sinfonia celestial, na qual cada ser humano é um instrumento e deve soar sua nota especial, que é a sua contribuição para o Plano Divino.

Em todas as tradições espirituais é sabido que práticas e rituais foram concebidos para facilitar, ou mesmo induzir, expansões de consciência que, no seu devido tempo, conferem poder a seus praticantes. Nos Ioga Sutras de Patanjali estão listados esses poderes, que incluem a capacidade de ler pensamentos, ver e ouvir à distância, efetuar curas consideradas pela ciência como milagrosas etc. Obviamente tais poderes podem ser usados tanto para o bem como para o mal. Por isso, todos os instrutores idôneos exigem de seus discípulos um período relativamente longo de preparação, antes de ensinarem as técnicas ou permitirem a participação dos discípulos nos rituais que conferem poder. A raja ioga, por exemplo, inicia-se com a ioga preliminar, na qual o discípulo deve se engajar por vários anos em práticas que visam a purificação. O objetivo de todos esses cuidados é promover o que os orientais chamam de ahimsa, ou seja, a inofensividade. Apenas o aspirante que é incapaz de fazer mal aos outros, não só com suas ações, mas principalmente com seus pensamentos, recebe as instruções orais que permitem alcançar os estágios avançados.

Como é bem sabido, Jesus conduziu seu ministério em dois níveis, para o grande público em linguagem simbólica e para seus discípulos abertamente, como indica a passagem: “A vós foi dado o mistério do Reino de Deus; aos de foram, porém, tudo acontece em parábolas” (Mc 4:11). São poucas as referências a práticas e rituais na Bíblia, e essas são consideravelmente veladas por simbolismo. Jesus ensinou seus mistérios aos discípulos, mas alertou-os severamente sobre o perigo decorrente da revelação desses segredos. O alerta foi registrado numa passagem cuja linguagem é especialmente forte: “Não deis aos cães o que é santo, nem atireis as vossas pérolas aos porcos, para que não as pisem e, voltando-se contra vós, vos estraçalhem” (Mt 7:6).

O cristão moderno verdadeiramente comprometido com sua transformação interior deve estar atento para os indícios nas diversas escrituras das práticas e rituais ensinados por Jesus. Alguns ensinamentos dessas práticas são mencionados na Bíblia, outros estão nos textos apócrifos que vieram a tona nos últimos séculos e outros, ainda, nas práticas conservadas pela tradição oral, principalmente em certas comunidades monásticas.

A oração sempre foi a prática básica de todas as tradições religiosas e espirituais. Quanto à forma, Jesus pontifica que o verdadeiro aspirante deve evitar a oração mecânica, repetitiva, sem o engajamento do coração: “Nas vossas orações não useis de vãs repetições, como os gentios, porque imaginam que é pelo palavreado excessivo que serão ouvidos” (Mt 6:7). Ao seus discípulos ensinou o “Pai Nosso” como forma de expressão de devoção e compromisso de vida. Muito aproveitaria ao fiel a leitura do livro inspirado de Teresa de Ávila, Castelo Interior ou Moradas (Paulus, 1981), em que essa grande mística carmelita discorre sobre os sete tipos de oração com seus respectivos níveis de realização espiritual. O primeiro nível é a oração mecânica e os mais elevados envolvem a contemplação.

A prática da meditação é apresentada na Bíblia de forma velada. Jesus, contrastando a postura daqueles que chama de hipócritas por fazerem suas orações nas sinagogas e em lugares públicos para serem vistos, exorta seus seguidores a fazerem suas orações em recolhimento. “Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechando tua porta, ora ao teu Pai que está lá, no segredo; e o teu Pai, que vê no segredo, te recompensará” (Mt 6:6).

O que é apresentado como sendo externo, o quarto, refere-se a algo interno, o coração. Jesus nos exorta a retirarmos nossa consciência para o âmago de nosso ser, simbolizado por aquele órgão. Fechar a porta, significa fecharmos a entrada das percepções do mundo exterior para a nossa consciência, inclusive o fluxo de pensamentos. Isso eqüivale à quinta etapa da ioga de oito passos de Patanjali, o recolhimento interior (pratyahara). Orar em segredo ao Pai significa permanecer em absoluto silêncio, sem palavras e pensamentos, no que é conhecido na tradição monástica como sendo o estado de contemplação. Com essa total aquietação da mente criamos as condições para que a pura luz da intuição possa atravessar a mente e gravar no cérebro o conhecimento superior, a maravilhosa recompensa prometida pelo Pai.

Os místicos de todos os tempos praticaram a meditação contemplativa. As descrições de Teresa de Ávila são extremamente reveladoras. João da Cruz talvez tenha inspirado o retorno dessa prática para grande número de fiéis dentro da Igreja Católica em nossos dias. Em sua obra, A Chama Viva do Amor5 João da Cruz descreve detalhadamente a transição da devoção sentimental para a intimidade com Deus. No momento em que a alma esgota seu aprendizado devocional, ela passa a ansiar por algo mais; a partir de então, começa um novo relacionamento com o Pai. A alma deve abandonar as antigas práticas e entregar-se a Deus sem demandas e em silêncio. Inicia-se um período de descanso em Deus, em que nada parece acontecer. A alma entrega-se a Deus sentindo uma profunda paz. Ainda que esse período de relativa aridez possa durar semanas, meses ou mesmo anos, se o praticante realmente se entregar a Deus, com fé na graça divina, mais cedo ou mais tarde encontrará o Bem Amado, não como imaginava que Ele fosse, mas como Ele é na realidade.6

A oração e a meditação devem ser praticadas diariamente, para que seus efeitos de elevação de consciência possam ocorrer. Mas, para entrar no Reino não basta alcançarmos esporadicamente alguns instantes de elevação espiritual. O Reino foi descrito como um estado de crescente sintonia com Deus. Essa sintonia deve ser estabelecida e mantida durante todo o dia. Paulo provavelmente referia-se a isso quando disse, na linguagem de seu tempo, que devemos orar sem cessar (1 Ts 5:17). Não devemos imaginar que Paulo, o grande ativista, estivesse exortando seus discípulos a abandonarem seus deveres para ficar orando dia e noite. O que estava sendo recomendado era o que veio a ser conhecido mais tarde, na tradição cristã, como a prática da lembrança de Deus. Devemos procurar voltar o nosso coração, a nossa lembrança, para Deus durante todo o dia, exatamente como fazemos quando estamos apaixonados por uma pessoa. Por isso foi dito: “Permanecei em mim como eu em vós” (Jo 15:4). O Cristo interior está sempre conosco, o que falta é nos voltarmos para Ele também. Essa sintonia é tão importante que o Divino Instrutor nos prometeu: “Se permanecerdes em mim e minhas palavras permanecerem em vós, pedi o que quiserdes e vós o tereis” (Jo 15:7).

Quando o praticante se engaja no processo de lembrança de Deus, ainda que inicialmente de forma imperfeita e com lapsos freqüentes durante o dia, ele inicia uma nova etapa no caminho. Antes ele lutava contra seus demônios interiores sozinho. Agora terá um aliado permanente a seu lado, o próprio Senhor do universo, a luz infinita que automaticamente repele a escuridão, a onisciência divina que vence toda ignorância. A partir de então o progresso será muito mais rápido, porque a verdade é incompatível com a falsidade do mundo, e o Amor, com o egoísmo da personalidade. Como Deus é verdade e amor, enquanto estivermos sintonizados com ele, as vibrações distorcidas do mundo material não terão lugar em nosso coração. Estaremos vivendo, então, numa vibração elevada, praticando naturalmente as virtudes divinas e avançando no Caminho da Perfeição.7

Além das práticas da oração, meditação e lembrança de Deus, encontramos nos evangelhos referências a certos rituais. A tradição esotérica sustenta que Jesus usava dois tipos de rituais, aqueles realizados com a participação de um grupo de discípulos e os de caráter iniciatório, que eram conferidos individualmente à medida em que o discípulo tornava-se capacitado para aquela expansão de consciência transformadora.

Dentre os rituais de caráter grupal, vale mencionar, além da Santa Ceia, aquele que é referido como o Hino de Jesus. Na Bíblia encontramos somente a curta e enigmática menção de um hino cantado por Jesus e seus discípulos: “Depois de terem cantado o hino, saíram para o monte das Oliveiras” (Mt 26:30 e Mc 14:26). Felizmente esse ritual, que ainda hoje é praticado por alguns místicos, com efeitos marcantes, foi preservado num documento conhecido como Atos de João e, mais tarde, publicado como O Hino de Jesus.8 Nesse ritual, os discípulos giravam ao redor de Jesus, que entoava invocações no centro da roda, enquanto os discípulos respondiam “Amém”.

Outro rito de Jesus, que se supõe era ainda mais poderoso, está descrito de forma tão velada na Bíblia, que é geralmente referido como o milagre da ressurreição de Lázaro. Se examinarmos a longa passagem em João (Jo 11:1-43) veremos que o relato é estranho devido ao comportamento aparentemente bizarro de Jesus. O Mestre, ao ser avisado pelas irmãs de Lázaro, Maria e Marta, que seu discípulo querido9 estava “doente”, parece não demonstrar preocupação e interesse por seu estado de saúde. Seu comentário, ao receber o pedido de ajuda, é de que “essa doença não é mortal, mas para a glória de Deus”. Depois disso Jesus permanece mais dois dias onde estava pregando e só então decide ir ao povoado de Lázaro. Ao dizer aos discípulos: “Lázaro morreu. Vamos para junto dele!”, Tomé, surpreendentemente, diz: “Vamos também nós, para morrermos com ele!” Como explicar esse desejo de Tomé de morrer com Lázaro, a não ser que essa “morte” fosse algo extremamente desejável?

Todos conhecemos o final feliz do episódio, com Lázaro saindo do sepulcro, em resposta ao comando de Jesus, com os pés e as mãos enfaixados e com o rosto recoberto por um sudário. Essa passagem bíblica é  um relato alegórico de um elevado ritual dos mistérios, no qual o iniciado entra em transe por três dias, aparentando estar morto. Ao fim do terceiro dia, o hierofante, no caso Jesus, usando palavras de poder, desperta-o do transe. Noutra passagem bíblica Jesus parece referir-se a esse mesmo mistério quando diz: “Destruí este templo, e em três dias eu o levantarei” (Jo 2:19).

Nas epístolas de Paulo encontramos várias passagens em que é usada a linguagem técnica dos mistérios. Talvez a mais clara seja: “É realmente de sabedoria que falamos entre os perfeitos, sabedoria que não é deste mundo nem dos príncipes deste mundo, voltados à destruição. Ensinamos a sabedoria de Deus, misteriosa e oculta, que Deus, antes dos séculos, de antemão destinou para a nossa glória” (1 Co 2:6-7). Aproximadamente um século depois, alguns discípulos de Valentino diziam ter recebido de seu mestre os ensinamentos secretos de Paulo.10

No Evangelho de Felipe, texto encontrado na Biblioteca de Nag Hammadi, descoberta no Egito em 1947, existem várias passagens relacionadas com os sacramentos ou mistérios de Jesus. É interessante notar que Jesus teria instituído cinco e não os sete sacramentos usados pela Igreja: “O Senhor fez tudo num mistério, um batismo, uma crisma, uma eucaristia, uma redenção e uma câmara nupcial”11 Esses sacramentos pareciam ter um caráter iniciático, e cada um era ministrado somente uma vez na vida do indivíduo (na Igreja romana a eucaristia e a redenção podem, em princípio, ser ministradas todos os dias).

A igreja romana, herdeira da tradição aberta dos ensinamentos de Jesus ministrados ao povo, adotou os sacramentos de Jesus, instituindo, mais tarde, outros dois, a ordem (para a ordenação dos padres) e a extrema unção. O caráter iniciático dos três primeiros sacramentos (batismo, crisma e eucaristia) foi mantido pela Igreja, com algumas modificações necessárias para serem ministrados abertamente ao público. No entanto, o batismo, entre os cristãos primitivos, só era conferido após a idade de 20 anos, quando o postulante teria suficiente maturidade para decidir livremente o caminho a tomar e preparar-se devidamente pelo prazo mínimo de dois anos, para a cerimônia de iniciação.

Os dois últimos sacramentos, que conferiam os estágios mais elevados de consciência associados ao Reino dos Céus, foram desvirtuados em suas versões externas. A redenção, conhecida na igreja primitiva como apolytrosis, teria certo paralelo com a ressurreição de Lázaro. Era nesse estágio que provavelmente ocorria a transformação do “homem velho em homem novo,” a que se referia Paulo (Cl 3:9-10). O sentido de transformação desse sacramento de Jesus foi utilizado mais tarde pela igreja romana, na instituição de seu sacramento da penitência, mais conhecido dos católicos como confissão. É interessante notar que esse sacramento da Igreja está em contradição com os ensinamentos de Jesus a respeito da lei de causa e efeito, também referidos de forma clara por Paulo: “Não vos iludais; de Deus não se zomba. O que o homem semear, isso colherá: quem semear na carne, da carne colherá corrupção; quem semear no espírito, do espírito colherá a vida eterna” (Gl 6:7-8).

No sacramento da câmara nupcial, que só estava ao alcance dos discípulos mais avançados, era conferida a suprema iluminação. A igreja romana transformou esse sacramento no matrimônio, visando santificar a união exterior entre homem e mulher. O sacramento da câmara nupcial visava promover a união interior. Nele, a alma totalmente purificada, referida como virgem, unia-se ao divino esposo, o Cristo interior. Esse sacramento é referido na Bíblia, de forma velada, nas parábolas do banquete nupcial (Mt 22:1-14) e das dez virgens (Mt 25:1-13). Vários místicos referem-se a experiências interiores semelhantes. Vale a pena mencionar Jan van Ruysbroeck, um dos maiores místicos católicos, que escreveu no século XIV, em Adornos do Casamento Espiritual, que Cristo é o nosso noivo que nos convida a ir a Ele. 12

Ainda que os sacramentos originais pareçam perdidos, pelo menos no sentido em que eram ministrados por Jesus e seus discípulos, ao que tudo indica, continuaram a ser conferidos no plano interior aos místicos, ao longo dos séculos. Vemos um estreito paralelo entre as cinco iniciações, os cinco sacramentos de Jesus e os cinco estágios da vida mística.13
+ CONCLUSÃO

Nossos anseios espirituais podem ser perfeitamente atendidos pela herança que o Mestre nos legou. O Evangelho do Reino, mencionado tantas vezes na Bíblia, era exatamente a Boa Nova de que o Pai Amoroso nos aguarda ansiosamente em Seu Reino. Esse Reino está ao nosso alcance aqui e agora. Se perguntássemos como podemos conhecer o caminho para o Reino, talvez Cristo nos respondesse hoje, como o fez a Tomé: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai a não ser por mim” (Jo 14:6). “Eu Sou” era uma expressão técnica usada pelos judeus para referirem-se a Deus.

Com muita propriedade, o Cristo interior é o Caminho, a Verdade e a Vida. Em primeiro lugar, Cristo é o Caminho: somente quando o despertamos interiormente é que de fato entramos no Caminho da Perfeição. Cristo é Luz, portanto, ao trilharmos o Caminho alcançamos a Verdade. E o conhecimento da Verdade nos concede a Vida Eterna, que é outra forma de expressar a realização do Reino, o estado de continuidade de consciência da união com o Pai. Portanto, verdadeiramente, ninguém vem ao Pai a não ser por intermédio do Cristo interior.

Vale a pena lembrar que o Filho é Deus em seu aspecto imanente, em todos os seres e todas as coisas, enquanto o Pai é Deus em seu aspecto transcendente. Portanto, só podemos alcançar Deus no seu sentido externo, o Pai que está além deste mundo, por intermédio de Deus em nós, o Cristo interior.

Alguns leitores, ao chegarem a este ponto, podem estar se sentindo divididos. Por um lado estariam inclinados a investigar mais a fundo as questões abordadas neste artigo, mas por outro estariam receosos de tomar este caminho antevendo a possibilidade de conflitos com os valores tradicionais de suas crenças. Nesse caso, valeria a pena recordarmos mais uma vez a orientação de Jesus: “Conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará”. Mas para que a verdade possa nos libertar devemos conhecê-la, e para conhecê-la devemos procurá-la. Assim o caminho começa com a busca e não precisamos temer os percalços do caminho porque Ele é o bom pastor e está sempre conosco. Como Ele é a Vida em nós, é a essência última de nosso ser, podemos nos entregar a Ele e, com total confiança, buscar a Verdade Nele. Na prática, isso significa uma atitude ativa e não passiva. Significa seguirmos Seus ensinamentos e procurarmos viver de acordo com a mais alta ética indicada por nosso coração, para assim promovermos a purificação de nossos corpos. Uma vez purificados, como os místicos bem sabem, podemos nos entregar às práticas espirituais com a confiança de que alcançaremos a Graça da Presença Divina em nosso coração.

A Igreja Católica também reconhece a importância da busca da verdade no caminho espiritual. Em seu parágrafo introdutório da “Carta Encíclica FIDES ET RATIO (Fé e Razão)”, o Papa João Paulo II pontifica: “Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si mesmo”.

A fé é o fundamento da religiosidade cristã, tanto de católicos como de protestantes de todas as correntes e denominações. Devemos ter fé que Ele estará conosco todos os dias, até a consumação dos tempos (Mt 28:20). Se realmente tivermos essa fé, saberemos com certeza que Ele só aguarda a nossa permissão para estar conosco. Essa revelação encontra-se numa das passagens mais tocantes da Bíblia: “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo” (Ap 3:20). Ele está permanentemente à porta de nosso coração, batendo suavemente em respeito ao nosso livre arbítrio. Mas não basta ouvirmos Sua voz, a voz da consciência. Temos que abrir a porta. Uma porta simboliza uma barreira à entrada dos que estão fora. A barreira que impede a entrada de Cristo em nossa vida são nossas impurezas, nossas vibrações dissonantes com a harmonia do Plano Divino. Por isso, abrir a porta significa mudarmos nossa vida, sintonizando nossa vibração com o Amor, a Verdade e a Paz. Quando isso ocorrer, Ele entrará em nosso coração e passaremos a ter consciência de Sua Presença. Então, Ele poderá cear conosco e nós com Ele, ou seja, alcançaremos a bem-aventurança da comunhão com Deus.

1 Raul Branco é um estudioso da tradição cristã, tendo publicado vários artigos e os livros: Pistis Sophia, Os Mistérios de Jesus (RJ, Bertrand Brasil, 1997) e Os Ensinamentos de Jesus e a Tradição Esotérica Cristã (SP, Pensamento, 1999).

2 Estas chaves podem ser obtidas nas obras: Geoffrey Hodson, A Vida do Cristo do Nascimento a Ascensão (Brasília, Editora Teosófica, 2000) e Os Ensinamentos de Jesus e a Tradição Esotérica Cristã, op. cit

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Caros Amigos e Irmãos:
Estamos distribuindo, em nome do site www.filosofiaesoterica.com, o texto “Três Tipos de Fé”, de Robert Crosbie. Uma nota dos editores afirma:

“A vida é feita de fé e confiança, mas discernimento também é indispensável. Neste texto escrito com palavras simples, Robert Crosbie investiga uma das questões mais complexas da arte de viver: ‘em que colocamos nossa fé?’  E ainda: ‘como garantir que não colocamos nossa fé em coisas e objetivos ilusórios?’  Robert Crosbie foi  provavelmente o mais importante teosofista do século 20. Ele fundou a Loja Unida de Teosofistas  em 1909. Trabalhando silenciosamente através da LUT, ele devolveu o bom senso a amplos setores do movimento teosófico, salvando-o da destruição.”

Os interessados em um estudo diário da teosofia original e da filosofia clássica devem  escrever a lutbr@terra.com.br , perguntando como é possível acompanhar o trabalho do e-grupo SerAtento.

Abraços

Regis Alves de Souza

Três Tipos de Fé

Como Se Libertar das Crenças Falsas

Por: Robert Crosbie

Robert Crosbie foi provavelmente o mais importante teosofista do século 20. Ele fundou a Loja Unida de Teosofistas em 1909. Trabalhando silenciosamente através da L.U.T., ele devolveu o bom senso a amplos setoresdo movimento teosófico, salvando-o da destruição.

Todo ser humano tem fé! Fé em alguma coisa, em algum ideal, alguma concepção, alguma religião, alguma fórmula. Mas enquanto a fé de diferentes pessoas tem este ou aquele objeto, a fé em si mesma vem do Mais Alto, e é inerente ao coração de cada ser. A fé é a própria base do nosso ser

Seja qual for o caminho que seguimos, fazemos isso por causa da fé que temos - a convicção de que este é o melhor caminho.  O fato de que o mundo está cheio de convicções falsas se deve às diferentes ideias, crenças e filosofias, que limitam a fé propriamente dita aos meios considerados necessários para alcançar um objetivo específico.

O capítulo dezessete do “Bhagavad Gita” afirma que há três espécies de fé. Existe a fé de qualidade sattva, que é boa e verdadeira; a fé de qualidade rajas, de ação e de paixão; e a fé da qualidade tamas, de indiferença e ignorância. Estas três qualidades dadas à fé são, na verdade, as três limitações colocadas na fé por todo ser humano; porque o poder da fé é, em si mesmo, ilimitado. Nós limitamos continuamente esta energia para que ela opere dentro do alcance de alguns objetos menores, ou de um ideal baseado em coisas externas.

“A alma presa a um corpo tem o dom da fé, e cada homem possui a mesma natureza que o ideal em que ele fixa a sua fé.” O homem tem a fé de acordo com a sua disposição; e ele também adquire continuamente a substância do ideal em que ela se baseia. É evidente, portanto, que deveríamos conhecer com segurança a natureza da fé sobre a qual está colocado o nosso ideal.

Se alguém coloca a sua fé em qualquer coisa externa, seja qual for - deuses ou homens, religiões ou sistemas de pensamento - ela não tem qualquer base firme. O homem impede a força do seu próprio espírito de expandir-se além dos limites do seu ideal.  Quando, por exemplo, nós aceitamos a ideia de que nada é real exceto aquilo que podemos ver, escutar, saborear, cheirar ou tocar, estamos colocando nossa fé sobre uma base muito inferior.

Existe uma causa para que haja falsidade em nosso pensamento e na nossa ação, quando pensamos que o momento presente é o único momento, que o mundo externo e terrestre e esta existência atual são a única vida, da qual saímos para ir não sabemos onde, sem saber tampouco qual o propósito disso tudo.

Olhar para todos os seres a partir das nossas próprias limitações mentais e da nossa capacidade de percepção - e ver apenas os aspectos externos da fala e da ação deles - não é vê-los como realmente são.  Um Deus externo, ou um demônio externo, uma Lei externa, uma salvação externa dos pecados, e a ideia de que o pecado seja qualquer coisa além da negação da nossa própria natureza divina (o pecado imperdoável), são todos objetos de fé externa, que possuem a natureza de tamas, ou ignorância. A ignorância sempre leva à superstição.  A superstição leva à falsa crença, e a falsa crença produz a fé falsa.

Estamos todos em constante conflito uns com os outros por causa da fé que é colocada sobre bases falsas, e pelo próprio fato de que a fé colocada em qualquer coisa tem resultados. Os homens tornam-se cegos para a fé real e verdadeira devido aos resultados que até mesmo a falsa fé produz. No entanto, enquanto tivermos uma fé falsa, continuaremos a criar vidas de sofrimento para nós mesmos.  Os resultados que fluem de uma fé falsa colocada em um ideal egoísta trazem-nos necessariamente maus efeitos em condições inadequadas. Eles são as próprias limitações que nós impusemos sobre nós mesmos através de fé colocada em objetos externos em outras vidas, e temos que voltar várias vezes em outros corpos até que nos libertemos dos defeitos que foram produzidos em nossa natureza pela fé em coisas externas.

Devemos obter uma base para o pensamento e a ação que seja melhor do que a fé falsa e hereditária das atrações e repulsões. Nós produzimos os efeitos que vemos. Mas, se mudarmos nossos ideais, não necessitaremos continuar repetindo os mesmos erros uma vida após a outra. Basta encontrar uma base verdadeira para a fé. Temos que colocar nossa fé sobre aquilo que não é externo, mas interno.

O Interno é a própria fonte de todo tipo de poderes que possuímos. E este Interno é o mesmo em todos os seres vivos.  Na própria raiz do nosso ser, está aquele Eu imutável que nós só podemos conhecer dentro de nós mesmos.  Para podermos alcançar o nosso interior em busca Dele, devemos primeiro renunciar a todas as nossas ideias – a tudo que muda.

Em primeiro lugar, o homem deve renunciar à ideia de que ele é o seu corpo. Ele ocupa o corpo; ele o usa; mas ele sabe que o corpo está sempre mudando, e que nunca, nem por um instante, o corpo é o mesmo que foi no momento anterior.  O homem deve renunciar também à ideia de que ele é a sua mente.  Porque ele pode mudar as ideias que a compõem - pode expulsá-las, corporalmente, e adotar o próprio oposto delas, se quiser - e, no entanto ainda estará lidando com outras ideias. Nós não somos corpos, não somos mentes, nem somos as duas coisas juntas; mas somos Aquilo que usa e que sustenta o corpo e a mente.

Através de todas as mudanças do passado e do presente, e das mudanças que estão por vir, sempre seremos nós mesmos. Mesmo quando a morte vier, ainda estaremos operando de uma maneira diferente da maneira do corpo físico. O Eu Imutável coloca o universo inteiro ao alcance da mente de qualquer ser. Esta é uma base estável para o pensamento, a ação e a compreensão interior de si mesmo.

Devemos saber três coisas: cada um é o Eu em sua natureza mais interna; toda força que ele tem surge desse Eu; e todo ser de qualquer espécie é consciente, tendo o poder correspondente ao seu campo de percepção e ação.  Todo instrumento está sujeito à limitação da concepção que há sobre a real natureza do indivíduo. O homem nunca poderá compreender sua unidade com a Única Grande Vida olhando para outros seres, nem através de qualquer tipo de fé. Ele só pode obter esta compreensão olhando para sua própria natureza.  A sua própria substância é compreendida olhando aquilo que não é a natureza do Eu.  Porque qualquer coisa que seja vista, ouvida, sentida, saboreada ou percebida não é o Eu, mas apenas uma percepção do Eu.

O Eu percebe aquilo que pode ser percebido através das suas próprias ideias, de acordo com sua própria fé, mas aquilo que é percebido nunca é o Eu. Dentro de cada ser que faz  qualquer ação, ou em qualquer ser em quem percebemos qualquer coisa, há um Eu; mas não o percebemos. Só compreendendo este Eu dentro de nós mesmos, poderemos compreender a sua existência dentro dos outros seres todos.  Assim, devemos honrar a natureza espiritual de cada um, e esforçar-nos para ajudar aquele ser a ver por si mesmo o caminho verdadeiro pelo qual ele poderá compreender a sua própria natureza! Todos nós temos que pensar e agir tendo como guia esta natureza verdadeira.

Pensamos que estamos impedidos de muitas maneiras de adotar o ponto de vista da verdadeira natureza.  Mas isto é apenas uma ilusão que nasce da fé falsa que temos tido. Temos estabelecido ideias, atrações e repulsões, e sentimentos que, devido à lei do retorno das impressões, voltam a nós uma e outra vez. No momento em que tentamos adotar uma atitude oposta, encontramos o resultado da ação combinada de todas estas forças existentes dentro de nós. Isso é o que podemos chamar de “guerra nos céus” - a guerra na própria natureza do homem.

Mas se ele permanecer sincero em relação à sua própria natureza espiritual, estará destinado a vencer. Se ele tiver fé na lei da sua natureza, irá adiante; e, gradualmente, os obstáculos desaparecerão. Devemos perseverar de modo severo, e ter confiança e fé Naquilo que é o único fator Real em toda parte - a própria Vida -, a Consciência. Então serão destruídos os grilhões que construímos para nós mesmos. Todas as forças da natureza começam a agir sobre nós e conosco, porque não temos desejos em relação a nós próprios, mas apenas desejamos o bem e a salvação de todos.  Todas as almas e todas as coisas parecem trabalhar para proveito nosso, mas não porque nós queiramos isso. Começamos a ver o significado espiritual da afirmativa de que o homem que deseja salvar sua vida deve perdê-la.[1] Ele renuncia a tudo o que está no nível da aquisição para si mesmo, dedicando todas as suas energias ao serviço dos outros, e o universo inteiro passa a estar diante dele. Ele pode tomar tudo para si. Mas não deve tomar coisa alguma para si, exceto para doá-la novamente. Não deve aceitar nada, a não ser para colocá-lo novamente aos pés dos outros!

Não se coloca a questão de pecados ou de pecador. Não se coloca a questão de bem e mal. Há apenas uma questão: “Você está trabalhando para você mesmo como você vê a si mesmo, ou está trabalhando para o Eu como você deveria entender que você é, e mais nada?  Se não quiser coisa alguma para si mesmo,  se não exigir coisa alguma para este corpo, mas pensar apenas em trabalhar pelos outros, aquilo que é necessário virá de acordo com a lei da própria força em função da qual você produz uma atração.

O apoio vem de todas as direções. Toda a natureza - espiritual, intelectual, psíquica, astral e física - é fortalecida; e até as circunstâncias ao seu redor são melhoradas. É a nossa falta de fé - a nossa ausência de fé Naquilo - que nos coloca onde não gostaríamos de estar. Negar o Cristo interior, o Krishna interior, o Espírito interior, é o “pecado imperdoável”. E, enquanto nós crucificarmos o Cristo interno, iremos sofrer na cruz das paixões e dos desejos humanos.  Trabalhar para nós mesmos é uma criação que nos amarra firmemente a condições inadequadas. Podemos tentar obter corpos melhores, posições melhores, posses e propriedades de todos os tipos, qualidades melhores, e uma compreensão melhor apenas sob uma condição, a de que nossa intenção seja a de tornar-nos mais capazes de ajudar e ensinar os outros.

A única fé verdadeira é a fé no Mais Alto - no imutável, Naquilo que cada um é em sua natureza mais interior.  O  único caminho verdadeiro é o da confiança na lei da nossa própria natureza espiritual.  Os homens podem ir de fé em fé, trocando a fé em uma coisa pela fé em alguma outra coisa, e avançar de vida em vida obtendo resultados de acordo com a natureza do ideal sobre o qual está colocada sua fé. Mas o único caminho de saída é o caminho da fé na natureza espiritual e essencial de todos os seres.  E não poderia ser dado a qualquer ser humano um dom maior do que o fato inegável de que ele - e cada um - tem o poder de compreender esta fé. Isso faz parte do conhecimento antigo, preservado por uns poucos e colocado em prática por uns poucos. É algo que Eles sempre têm trazido para um mundo baseado em formas falsas de fé, tentando assim ensinar os povos em geral.

Aquele que segue o Caminho da verdadeira fé não se afasta dos seus semelhantes. Os seus semelhantes são mais importantes para ele do que jamais foram antes. Ele vê mais coisas neles. Ele enxerga mais claramente as dificuldades que eles enfrentam, e deseja ajudá-los de todas as maneiras possíveis. Assim, ele está mais vivo como homem. Ele age com mais consciência do que os outros. Ele consegue mais do que eles da natureza, porque vê o todo e vê os aspectos dos indivíduos que compõem o todo. Ele aproveita a vida tanto quanto - e ainda mais do que - o homem que vive para buscar a diversão e a felicidade, o homem cuja ambição é pessoal.  Mas ele não vive para si mesmo.  O único objetivo da sua vida é que os seres humanos  possam conhecer estas verdades, porque ele sabe que o conhecimento significa a destruição das formas falsas de fé, e portanto a destruição de todo o sofrimento e dos horrores da existência física.  Assim, a evolução continuará através de saltos e de limitações. Os homens irão libertar-se de lugares aos quais se dedicaram, e irão adiante sem limites, em um universo de possibilidades infinitas.

Quando todas as nossas crenças falsas, nossos desejos e paixões, atrações e repulsões tiverem sido abandonadas como vestimentas velhas, e quando tenhamos reassumido aquela natureza em nós que é divina, então seremos capazes de construir uma civilização tão mais elevada do que a atual quanto seria possível imaginar. Porque não podemos fugir do Carma da raça humana atual, nem daqueles efeitos que foram produzidos por todos nós em conjunto, e que devemos enfrentar juntos.

A melhor maneira, a maneira mais elevada e a maneira mais segura de agir é avançar ao longo da linha da nossa própria natureza interior, e, ao fazer isso, dar elementos para que outros possam compreender as suas naturezas internas.   Então, permanecendo Naquilo que é imortal, imutável,  sem limites, Naquilo que é o nosso próprio eu e o Eu de todas as criaturas, a compreensão virá -; ela virá pouco a pouco, mas certamente virá.

NOTA:

[1] Veja Mateus, 10:39. (Nota do editor brasileiro)

O texto acima foi traduzido da obra “The Friendly Philosopher”, de Robert Crosbie, Theosophy Company, Los Angeles, 1945, 416 pp., ver pp. 354-359. Título original do texto: “Three Kinds of  Faith”.

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Para ter acesso a um estudo diário da teosofia original, escreva a lutbr@terra.com.br e pergunte como é possível acompanhar o trabalho do e-grupo SerAtento.

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As Origens da Teosofia

Um Trecho da Obra “A Chave da Teosofia”

Helena P. Blavatsky

Nota dos Editores:

Da Sociedade Original

Para o Movimento de Hoje

Na primeira parte do século 21, o movimento teosófico possui o mesmo potencial sagrado a ser desenvolvido no longo prazo, e enfrenta desafios semelhantes aos que enfrentava quando, no final do século 19, foi publicada a obra “A Chave da Teosofia”, de H. P. Blavatsky. Tudo indica que, no fundamental, isso não se alterará nos próximos séculos. No entanto, tem havido mudanças significativas no plano externo e organizacional, e a velha Sociedade dos anos 1880 já não existe mais.

A Sociedade Teosófica original foi fundada em 1875 por H.P.B., com ajuda de Henry Olcott, William Judge e outros. A reunião em que decidiu-se pela criação do movimento ocorreu em 7 de setembro de 1875. No dia seguinte, houve a primeira reunião formal, com Ata.

Poucos anos depois da morte de H.P.B., em 1891, a Sociedade original perdeu o rumo e começou a fragmentar-se. Sob a direção de Annie Besant, o fragmento mais numeroso do movimento deixou de dar prioridade à teosofia original e passou a dedicar atenção prioritária a ritualismos, à fantasia de que Jiddu Krishnamurti seria um Avatar, a conversas imaginárias com Mestres e  outras novidades de curta duração. Com sede internacional em Adyar, na Índia, a Sociedade de Annie Besant abandonou a filosofia esotérica clássica e passou a tratá-la como uma curiosidade histórica e literária, algo interessante mas “demasiado difícil”.

Tendo optado pelo Caminho Fácil da pseudo-teosofia − privada há pouco mais de um século da fonte viva e original de inspiração − a Sociedade de Adyar vive hoje um outono difícil e uma situação inédita, criada após a crise e a fraude eleitoral de 2007-2008.

Depois de ter sido nomeado durante vários mandatos consecutivos para uma posição de confiança − como vice-presidente internacional −, o sr. John Algeo lançou, no final de 2007, uma candidatura independente contra a candidatura à reeleição da sra. Radha Burnier, que preside Adyar desde 1980.

A principal bandeira eleitoral de John Algeo consistia em afirmar que Radha Burnier já não tinha condições de saúde suficientes para continuar na presidência. A isso seguiu-se uma campanha eleitoral marcada por iradas acusações mútuas de fraude. A luta cega pelo poder prosseguiu sem trégua mesmo depois da questionada vitória eleitoral de Radha Burnier, que ocorreu em meados de 2008. Teosofistas experientes de Adyar - que têm respeito pela teosofia autêntica ainda que não a sigam - narram episódios lamentáveis no estágio atual da crise de poder. Não nos cabe entrar nestas questões específicas, embora elas sejam bem conhecidas do público, em língua inglesa. O teosofista brasileiro Pedro Oliveira (ex-secretário internacional nos anos 1990 e hoje influente no campo favorável a Radha Burnier) publicou pelo menos dois textos descrevendo passo a passo a “conspiração anti-ética” dos seguidores de Algeo.  Amplamente conhecidos em língua inglesa, estes e outros textos da crise ainda não foram traduzidos ao português.

Teosofistas de Adyar que ocupam posições de liderança no Brasil e fora do Brasil consideram que há, agora, uma divisão praticamente irreversível entre os partidários de John Algeo e os partidários de Radha Burnier. Algeo tem o apoio da maior parte das seções nacionais do Ocidente. Radha Burnier conta com o apoio da Índia e de umas poucas seções nacionais do Ocidente. Deste modo, a Sociedade criada por Annie Besant após a morte de Helena Blavatsky deixa, na prática, de existir. Organizada em mais de 50 países, ela agora está dividida de fato entre os “moderados tradicionalistas”, que seguem Radha Burnier, e os “academicistas modernizantes céticos”, que seguem John Algeo, e cujos líderes parecem pretender abandonar todo respeito pela Teosofia, ou pela Ética. E isso não ocorre por acaso. Aparentemente, John Algeo e suas ações representam para Adyar o carma maduro do abandono da teosofia por parte da Sociedade criada por Annie Besant há pouco mais de um século atrás.

Nesta primeira parte do século 21, existem duas outras correntes internacionalmente organizadas de pensamento teosófico.

1) Uma delas é a Sociedade Teosófica com sede internacional em Pasadena, na Califórnia. A Sociedade de Pasadena está organizada em cerca de 10 países, e não caiu no populismo “neo-adventista” de Annie Besant, mas ajudou a preservar porções significativas da literatura original, dando até hoje uma contribuição qualitativa que é importante para o conjunto do movimento.

2) Outra escola de pensamento teosófico organizada internacionalmente e independente de Adyar é a Loja Unida de Teosofistas, LUT. Fundada em 1909, a LUT é a única das três correntes que jamais caiu na tentação de burocratizar o movimento, de proclamar que seus líderes eram grandes iniciados,  de engajar-se em lutas por poder ou de abandonar o ensinamento original. Presente hoje em cerca de 15 países, ela cresceu lentamente. Priorizando a vivência teosófica e trabalhando em silêncio, a LUT preservou o bom senso e o rumo correto. Uma das duas únicas revistas teosóficas mensais publicadas em papel hoje no mundo é feita por associados da LUT em Mumbai, na Índia. Seu nome é “The Theosophical Movement”.  A outra revista mensal pertence à Sociedade de Adyar.

Existem também numerosos grupos teosóficos, quase locais, mas influentes no cenário internacional. Entre eles estão a Sociedade Teosófica de Edmonton, no Canadá; os teosofistas da “Tradição de Point Loma” (Alemanha e Estados Unidos); e a “Fundação Blavatsky” (México).  E há milhares de indivíduos independentes ao redor do mundo, inspirados pela obra e pela proposta de ação de H.P. Blavatsky e dos outros pioneiros do movimento teosófico.

Devido à diversidade organizativa que hoje caracteriza o movimento, é importante lembrar, portanto, que − quando HPB menciona no texto a seguir a “Sociedade Teosófica” − ela se refere ao conjunto do movimento, naquele tempo ainda convivendo com pluralidade dentro da mesma grande instituição que ela fundara.

O amplo e diverso Movimento Teosófico atual necessita cada dia mais estudar e compreender a teosofia original, para que possa recuperar a sua vitalidade e assim ajudar com eficiência na construção da sociedade fraterna que marcará a civilização do futuro.  A teosofia autêntica contém a chave para o despertar mais amplo da consciência planetária que possibilita a prática  da fraternidade universal.

Feita esta rápida radiografia do da situação atual do movimento teosófico, vejamos agora o texto extraordinário de H. P. Blavatsky sobre as fontes da filosofia esotérica moderna. Trata-se de uma parte do capítulo um da sua obra “A Chave da Teosofia”.

Fraternalmente,

Os Editores do site www.filosofiaesoterica.com .   (Novembro de 2009)

As Origens da Teosofia

A Teosofia e a Sociedade Teosófica

Helena Blavatsky

O SIGNIFICADO DO NOME

PESQUISADOR: Frequentemente, a teosofia e as suas doutrinas são descritas como uma nova religião.  Isso é verdade?

TEOSOFISTA: Não. Teosofia é conhecimento divino ou ciência divina.

PESQ.: Qual é o verdadeiro significado do termo?

TEOS.: Sabedoria Divina. “Theosophia” significa sabedoria dos deuses, assim como “Teogonia” significa genealogia dos deuses.  A palavra “theos” significa um deus, em grego, um dos seres divinos, e  certamente não significa “Deus” no sentido que se dá atualmente ao termo. Portanto, ela não é “Sabedoria de Deus”, como alguns traduzem o termo, mas aquela  Sabedoria Divina que pertence aos deuses. O termo existe há muitos milhares de anos.

PESQ.: Qual é a origem do nome?

TEOS.:  Ele vem dos filósofos de Alexandria, os chamados amantes da verdade, Filaleteus, de “Fil” (amar) e “Aleteia” (verdade). O nome “teosofia” data do século três da nossa era, e começou a ser usado por Amônio Saccas e seus discípulos 1, que criaram o sistema Teosófico Eclético.

PESQ.: Qual era o objetivo deste sistema?

TEOS.: Em primeiro lugar, transmitir algumas grandes verdades morais a seus discípulos, e a todos os que eram “amantes da verdade”. Disso surgiu o lema adotado pela Sociedade Teosófica: “Não há religião mais elevada que a verdade”.2 O  principal objetivo dos fundadores da Escola Teosófica Eclética era um dos objetivos da sua sucessora moderna, a Sociedade Teosófica, isto é, reconciliar todas as religiões, seitas e nações sob um sistema comum de ética, com base em verdades eternas.

PESQ.:  Que meios você  tem de mostrar que isto não é um sonho impossível, e que todas as religiões do mundo estão baseadas em uma única e mesma verdade?

TEOS.: O estudo e a análise comparada das religiões. A “Religião da Sabedoria” era uma só, nos tempos antigos. A unidade da filosofia religiosa primitiva está comprovada pela identidade das doutrinas ensinadas pelos Iniciados nos MISTÉRIOS, uma prática que, naqueles tempos, era adotada universalmente. “Todas as velhas formas de adoração indicam a existência de uma só Teosofia anterior a elas. A chave que abre uma deve abrir todas; caso contrário não poderá ser a chave correta.” (“Eclectic Philosophy”)


O PROGRAMA DE AÇÃO DA SOCIEDADE TEOSÓFICA

PESQ.: Na época de Amônio, havia várias grandes religiões antigas, e as seitas no Egito e na Palestina eram numerosas, sem pensar em outras regiões.  De que modo ele poderia conciliá-las?

TEOS.: Fazendo o que estamos tentando outra vez agora. Os neoplatônicos eram numerosos, e pertenciam a várias filosofias religiosas.3 O mesmo acontece com os nossos teosofistas. Naquele tempo, o judeu Aristóbulo dizia que a ética de Aristóteles representava os ensinamentos esotéricos da Lei de Moisés; Filo Judeu se esforçava por reconciliar o Pentateuco com a filosofia pitagórica e platônica; e Josefo comprovava que os essênios de Carmelo eram simplesmente os copistas e seguidores dos terapeutas egípcios (os curadores).  O mesmo ocorre em nossos dias. Nós podemos mostrar a origem e a trajetória de cada grupo cristão, incluindo a menor das suas seitas. As seitas são os ramos menores nascidos dos galhos maiores da árvore; mas ramos e galhos surgem do mesmo tronco: a RELIGIÃO DA SABEDORIA.  A meta de Amônio era provar isso. Ele se esforçava por induzir gentios e cristãos, judeus e idólatras, a deixar de lado suas disputas e brigas, lembrando apenas que todos possuíam a mesma verdade sob diferentes vestimentas, e eram todos filhos de uma mesma mãe.4 Esta é também a meta da teosofia.

PESQ.: Com base em que autoridades você faz estas afirmações sobre os antigos  teosofistas de Alexandria?

TEOS.: Um número quase incalculável de escritores bem conhecidos. Mosheim, um deles, diz o seguinte:

“Amônio ensinava que a religião das multidões avançava lado a lado com a filosofia, e compartilhava com ela o destino de ser corrompida e obscurecida por meras vaidades, mentiras e superstições humanas; que a religião deveria ser, portanto, trazida de volta para a sua pureza original, expulsando dela o lixo e expondo-a com base em princípios filosóficos; e que Cristo tinha como objetivo restabelecer e restaurar na sua integridade primitiva a sabedoria dos antigos; colocar certos limites à influência dominante da superstição; e, em parte, corrigir, em parte eliminar, os vários erros que haviam aparecido nas diferentes religiões populares.”

Isto é precisamente o que os teosofistas modernos dizem.  A única diferença é  que o grande filaleteu era ajudado e apoiado, no programa de ação que ele seguia, por dois padres da igreja −  Clemente e Atenágoras − e por todos os rabinos instruídos da sinagoga, da Academia  e dos bosques, e ensinava uma doutrina comum a todos; enquanto que nós, que seguimos a mesma linha de ação, não recebemos reconhecimento, mas, ao contrário, somos alvos de insultos e perseguição. Assim, podemos ver que 1500 anos atrás as pessoas eram mais tolerantes do que neste século iluminado.

PESQ.: Amônio era encorajado e apoiado pela igreja porque, apesar das suas heresias, ele ensinava cristianismo e era um cristão?

TEOS.: Não, de modo algum. Ele nasceu como cristão, mas nunca aceitou o cristianismo do igreja. O mesmo escritor afirmou, sobre Amônio:

“Ele teve apenas que propor as suas instruções de acordo com os antigos pilares de Hermes, que Platão e Pitágoras conheciam antes dele, e com base nos quais eles constituíram suas filosofias. Encontrando a mesma ideia no prólogo do evangelho segundo São João, Amônio naturalmente supôs que o propósito de Jesus era restaurar aquela grande doutrina de sabedoria em sua integridade primitiva. As narrativas da Bíblia e as histórias dos deuses eram vistas por Amônio como alegorias ilustrativas da verdade, ou então fábulas a serem rejeitadas.”  Além disso, como afirma a Edinburgh Encyclopaedia, “ele reconhecia que Jesus era um excelente homem, e “amigo de Deus”, mas alegava que ele não pretendia abolir inteiramente a adoração de demônios (deuses), e que sua única intenção era purificar a religião antiga.”

A RELIGIÃO DA SABEDORIA, ESOTÉRICA EM TODAS AS ERAS

PESQ.: Se Amônio nunca escreveu nada, como podemos ter certeza de que estes eram os seus ensinamentos?

TEOS.:  Tampouco Buddha, Pitágoras, Confúcio, Orfeu, Sócrates, ou mesmo Jesus, deixaram quaisquer escritos.  No entanto, na maior parte dos casos eles são personagens históricos, e os seus ensinamentos sobreviveram. Os discípulos de Amônio (entre eles Orígenes e Herênio) escreveram tratados e explicaram a sua ética. Certamente estes tratados têm uma origem historicamente tão comprovada quanto a origem dos escritos apostólicos, ou mais. Além disso, os seus alunos − Orígenes, Plotino, Longinus (conselheiro da famosa rainha Zenobia) − todos deixaram registros volumosos sobre o Sistema Filaleteu; e isso pelo menos em seus aspectos públicos, porque a escola estava dividida em ensinamentos exotéricos e esotéricos.

PESQ.: Como os princípios esotéricos chegaram até os nossos dias, já que, segundo você afirma, aquilo que é propriamente chamado RELIGIÃO DA SABEDORIA era esotérico?

TEOS.: A RELIGIÃO DA SABEDORIA foi sempre a mesma, e como ela é a última palavra em termos do máximo conhecimento humano possível, ela foi, portanto, cuidadosamente preservada. Ela existe desde longas eras anteriores aos teosofistas de Alexandria. Ela chegou à era moderna, e irá durar até depois de qualquer outra religião e filosofia.

PESQ.:  Mas onde, e por quem ela foi preservada?

TEOS.:  Entre os Iniciados de cada país. Entre os que se dedicam profundamente à busca da verdade − seus discípulos. E naquelas regiões do mundo onde tais assuntos sempre foram valorizados e investigados: a Índia, a Ásia Central e a Pérsia.

PESQ.: Você pode dar algumas provas da existência deste esoterismo?

TEOS.: A melhor prova é  o fato de que em todo culto religioso − ou melhor, filosófico − da antiguidade havia um ensinamento secreto, ou esotérico, e uma adoração exotérica (para o público externo). Além disso, é bem conhecido o fato de que os MISTÉRIOS dos antigos se dividiam em todos os países em MISTÉRIOS “maiores” (secretos) e “menores” (públicos): por exemplo, nas celebradas solenidades chamadas Eleusínia, na Grécia. Desde os hierofantes da Samotrácia, no Egito, até os brâmanes iniciados da Índia, passando pelos rabinos hebreus, mais recentes, todos preservaram em segredo, por medo de profanação, as suas crenças que dependiam de boa fé. Os rabinos judeus chamavam a sua série secular de ensinamentos religiosos pelo nome de Mercavá (o corpo externo), “o veículo”, ou a cobertura que contém a alma oculta −, isto é, o conhecimento mais elevado e secreto. Nenhuma das nações antigas jamais transmitiu às massas, através dos seus sacerdotes, os seus verdadeiros segredos filosóficos. Transmitiram, publicamente, apenas a casca externa. O budismo do norte tem o seu veículo “maior” e o seu veículo “menor”, conhecidos como as escolas Mahayana, esotérica, e Hinayana, exotérica. Você não pode criticá-los por um tal segredo: seguramente você não pensaria em alimentar um rebanho de ovelhas com elevadas dissertações sobre botânica, ao invés de dar-lhes capim. Pitágoras chamava a sua Gnose de “o conhecimento das coisas que são”, e preservou aquele conhecimento apenas para os seus discípulos que haviam feito votos solenes: para aqueles que podiam digerir um tal alimento mental e sentir-se satisfeitos com ele. E ele exigia deles o compromisso do segredo. Os alfabetos ocultos e cifras secretas surgiram a partir dos antigos escritos hieráticos do Egito, cujo segredo estava, nos tempos antigos, em poder apenas dos hierogramatistas, os sacerdotes egípcios iniciados. Amônio Saccas, segundo seus biógrafos, exigia um juramento dos seus discípulos no sentido de que não divulgariam as suas doutrinas mais elevadas exceto para aqueles que já haviam sido instruídos em níveis preliminares de conhecimento, e que também deviam assumir um compromisso solene.  Finalmente, será que nós não encontramos a mesma coisa no cristianismo primitivo, entre os gnósticos, e mesmo nos ensinamentos de Cristo?  “A vocês”, diz ele, “é dado conhecer os mistérios do reino dos céus; mas para eles que estão fora, todas estas coisas são dadas em parábolas” (Evangelho segundo Marcos, 4: 11).  “Os essênios da Judéia e de Carmelo faziam distinções similares, dividindo os seus membros entre os que eram neófitos, os que eram irmãos, e os que eram perfeitos, ou iniciados” (“Eclectic Philosophy”).   Há exemplos disso em cada país.

PESQ.:  É possível alcançar a “Sabedoria Secreta” apenas pelo estudo? As enciclopédias definem Teosofia de modo muito semelhante à definição do Dicionário Webster, isto é, como “um suposto contato com Deus e espíritos superiores e a conseqüente obtenção de conhecimento sobre-humano através de meios físicos e processos químicos.”  Isso é verdade?

TEOS.:  Penso que não. E tampouco há qualquer lexicógrafo que seja capaz de explicar, seja para si mesmo ou para outros, como um poder sobre-humano poderia ser alcançado por meios físicos ou processos químicos. Se o dicionário Webster tivesse dito “através de processos metafísicos e alquímicos”, a definição estaria aproximadamente correta. Assim como está, ela é absurda.  Assim como os modernos, os teosofistas antigos afirmavam que o infinito não pode ser conhecido pelo finito − isto é, não pode ser percebido pelo Eu finito − mas que a essência divina pode ser comunicada ao Eu Espiritual superior em um estado de êxtase. Esta condição dificilmente pode ser obtida, como ocorre no caso do hipnotismo, por “meios físicos e químicos”.

PESQ.: Qual é a sua explicação para isso?

TEOS.: O verdadeiro êxtase foi definido por Plotino como “o fato de a mente libertar-se da sua consciência finita, tornando-se una com o infinito e identificando-se com ele”.  Esta é a condição mais elevada, diz o professor Wilder, mas não é uma condição que dure permanentemente, e só é alcançada por um número extremamente reduzido de indivíduos. O êxtase é, na realidade, idêntico ao estado de consciência chamado de Samadhi na Índia. Este último é alcançado pelos Iogues, que o tornam possível, fisicamente, através de uma abstinência extremamente rigorosa de comida e bebida, e, mentalmente, através de um esforço incessante para purificar e elevar a mente. A meditação é uma oração silenciosa e sem palavras; ou, como Platão afirmou, ela é “a ardente busca do divino por parte da alma, não para pedir qualquer bem específico (como ocorre no significado comum da palavra ‘oração’),  mas pelo bem em si mesmo, pelo Bem universal e Supremo” − do qual todos fazemos parte na terra, e de cuja essência nós todos emergimos. Portanto, acrescenta Platão,  “permaneça em silêncio na presença dos seres divinos, até que eles retirem as nuvens dos seus olhos e o capacitem para ver a luz que é transmitida por eles, e não ver o que a você parece ser bom, mas sim o que é intrinsecamente bom.” 5

PESQ.:  Então, ao contrário do que alguns afirmam, a teosofia não é um sistema novo?

TEOS.: Só os ignorantes podem referir-se a ela deste modo. Ela é tão velha quando o mundo, em seus ensinamentos e sua ética, se não em nome; assim como é, também, o sistema mais amplo e mais católico de todos.

PESQ.: Como pode ser, então, que a teosofia tenha permanecido tão desconhecida entre as nações do Hemisfério Ocidental?  Por que ela tem sido como um livro fechado para as raças que são consideradas como as mais cultas e avançadas?

TEOS.:  Acreditamos que havia nações igualmente cultas em épocas antigas, e que, sem dúvida, elas eram espiritualmente mais “avançadas” do que nós. Mas há várias razões para esta ignorância voluntária. Uma delas foi dada por São Paulo aos cultos cidadãos atenienses − ; a perda, durante longos séculos, da verdadeira compreensão espiritual, e até mesmo do interesse, devido a uma devoção excessivamente grande das pessoas pelas coisas dos sentidos, e por causa da sua longa escravidão à letra morta do dogma e do ritualismo.  Mas a razão mais forte disso está no fato de que a verdadeira teosofia foi sempre mantida em segredo.

PESQ.: Você expôs provas de que este segredo existe; mas qual é o real motivo dele?

TEOS.: As causas foram as seguintes.  Em primeiro lugar, a perversidade média da natureza humana, e o seu egoísmo, sempre tendendo para a gratificação dos desejos pessoais, em detrimento dos seus semelhantes, e mesmo dos mais próximos.  A tais pessoas nunca se poderia confiar segredos divinos Em segundo lugar, o fato de que não se pode confiar em que tais pessoas irão evitar a profanação do conhecimento sagrado e divino. Foi este segundo fator que levou à distorção dos símbolos e das verdades mais sublimes, e à gradual transformação de coisas espirituais em imagens antropomórficas, concretas e grosseiras −; em outras palavras, ao rebaixamento da ideia de divindade e à idolatria.

O texto acima foi traduzido de “The Key to Theosophy” (“A Chave da Teosofia”) ,  Theosophy Company, em Los Angeles, EUA, em 1987, 310 pp.

Para ter acesso a um estudo diário da teosofia original e sem distorções, escreva a lutbr@terra.com.br e pergunte como é possível acompanhar o trabalho do e-grupo SerAtento.

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Caros Amigos e Irmãos:

Para a teosofia original, cada palavra dita ou pensada tem uma força  e um poder que lhe são próprios. Os seus efeitos práticos dependerão especialmente da intenção e da intensidade com que ela é dita.  A palavra cria carma, e os seus frutos serão colhidos por aquele que a emitiu.  O uso das palavras e o objetivo com que elas são ditas determinam o rumo da vida de cada um.

Para abordar o tema decisivo do pensamento e da fala,  o website www.filosofiaesoterica.com está disponibilizando o texto “A Palavra Correta”. O seu subtítulo explica: “o poder da palavra elimina ou aumenta as causas do sofrimento”.

A reprodução “A Palavra Correta” é livre, uma vez que seja citada a fonte,  www.filosofiaesoterica.com .

Com os nossos votos de muita Paz, Luz, Amor e Alegria.

Fraternalmente. Régis

A Palavra Correta

O Poder da Palavra Elimina ou

Aumenta as Causas do Sofrimento

Por: Carlos Cardoso Aveline


“Devemos usar com cuidado estes

mensageiros vivos chamados palavras.”

William Q. Judge

O uso da palavra define o ser humano. Raramente, num instante de meditação, ficamos  livres do pensamento. Uma das nossas características centrais é que falamos quase o tempo todo, não apenas com palavras físicas, mas também mentalmente.  Quando não dizemos nada para os outros, estamos dizendo coisas para nós próprios. Quando não escutamos alguém, ouvimos dentro de nós a voz interior das esperanças e anseios que habitam nosso universo pessoal.

A fala, assim, é muito mais do que um mero som ou uma seqüência lógica de pensamentos.   É uma corrente magnética que contém e transmite vida.  Para o cachorro, a voz do dono desperta devoção e um sentido natural de obediência.  Para a criança pequena, a voz da mãe dá tranqüilidade e a faz dormir. Para aquele que busca compreender a si mesmo, a voz da consciência é seu grande mestre.

A filosofia esotérica ensina que o mundo físico, com suas três dimensões, é rodeado por um universo invisível, eletromagnético e  transcendente. Nesta quarta dimensão as distâncias físicas não têm importância. Este mundo sutil é conhecido como luz astral, ou akasha.  Nele estão registradas as imagens de todas as coisas que passaram e as sementes das coisas que virão.  É um espaço-tempo ilimitado,  que rodeia e também interpenetra o mundo tridimensional. Ali as coisas podem deslocar-se na velocidade do pensamento.

Este mundo oculto é influenciado decisivamente pela palavra.    “No início era o verbo”, diz a Bíblia (João, 1:1). E o verbo ainda hoje cria o universo humano.   Todos os dias, pela manhã, reinventamos a vida. É sempre aqui e agora que criamos o nosso destino futuro, através das palavras que dizemos para nós próprios e para os outros.  Cada pensamento e cada som é um mantra, porque detém um poder mágico de influenciar a vida de modo profundo.    Eliphas Levi escreveu: “As vibrações da voz modificam o movimento da luz astral e são veículos poderosos do magnetismo”. [1] As vibrações do pensamento que não é  falado têm o mesmo efeito.  Os mantras mais eficientes são ditos mentalmente.

O poder da palavra é enorme, portanto.   Ela é um fator vivo,  que salva ou condena, ilumina ou causa escuridão, faz adoecer ou cura ou dá esperança, conforme a intenção e a intensidade com que seja dita.  A intenção magnetiza a palavra. O pensamento correto leva à palavra e à ação corretas, e disto surge a felicidade interior.  Está escrito em “Provérbios”, o texto bíblico:

“Uma resposta branda aplaca a raiva, uma palavra agressiva atiça a cólera. A língua dos sábios torna o conhecimento agradável, a boca dos insensatos destila ignorância.  Em todo lugar os olhos de Deus estão vigiando os maus e os bons.  A língua suave é árvore da vida, mas a língua perversa quebra o coração. (…) Os lábios dos sábios espalham conhecimento, mas o coração dos insensatos não é assim.”  E  poucas linhas mais adiante: “abominação para Deus são os pensamentos maus, mas as palavras benevolentes são puras.” [2]

Na Grécia antiga, Platão escreveu:

“… Só as palavras pronunciadas com o fim de instruir, e que de fato se gravam na alma, sobre o que é justo, belo e bom − apenas nelas se encontra uma força eficaz, perfeita e divina a ponto de nelas empregarmos os nossos esforços  (…).  Quanto aos demais discursos, podemos desprezá-los.” [3]

Cada palavra a ser dita merece atenção, porque a palavra é a unidade básica do pensamento e da fala e sempre chega ao seu destino. Ela produz um efeito eletromagnético, e a parte principal do seu efeito se volta para nós próprios.  As palavras que dizemos ou pensamos ficam gravadas em nosso inconsciente e se misturam ao nosso destino. Esta é uma lei inevitável, e por isso nossa vida é, de fato, um fruto do nosso pensamento.   O “Dhammapada” budista ensina:

“Tudo o que somos hoje é resultado do que nós pensamos no passado: tudo o que somos se baseia em nossos pensamentos e é formado por nossos pensamentos. Se alguém fala ou age com um mau pensamento, o sofrimento o acompanha assim como a carreta segue os passos do boi que a puxa. (…..) Se alguém fala ou age com pensamento puro, a felicidade o acompanha assim como sua própria sombra, que  nunca se afasta dele.” [4]

O Novo Testamento  (Tiago, 3:2-3) afirma: “Aquele que não tropeça ao falar é realmente um homem perfeito, capaz de refrear todo seu corpo. Quando colocamos um  freio na boca dos cavalos, a fim de que nos obedeçam, conseguimos dirigir todo seu corpo”.

Assim como a cabeça do cavalo, a palavra vai na frente,  abre caminho e define as linhas pelas quais o futuro será construído. Por outro lado, a palavra é quase sempre um resultado prático de uma determinada experiência de vida.  O Jesus do Novo Testamento ensina:

“A boca fala daquilo de que o coração está cheio. O homem bom, do seu bom tesouro tira o bem, mas o homem mau, do seu mau tesouro tira o mal. Eu lhes digo que de toda palavra inútil que os homens disserem darão contas no Dia do Juízo. Pois por suas palavras você será justificado, e por suas palavras será condenado” (Mateus, 12:34-37).

Sobre o mesmo assunto, um raja-iogue dos Himalaias escreveu:

“O princípio fundamental do Ocultismo é que cada palavra ociosa é registrada, do mesmo modo que cada palavra sincera e plena de significado.” [5]

O poder da palavra e do pensamento é como o fogo. Ele ilumina, mas também pode queimar, e por isso deve ser usado com atenção.  Em geral, quem fala impensadamente também age sem pensar.  Quando sabemos calar, fica mais fácil parar o pensamento verbal e abrir  espaço para a luz da intuição. Então passamos a perceber a verdade de modo cada vez mais direto,  diminuindo a  necessidade da intermediação da palavra. O pensamento pode ir além da palavra, e Gibran Khalil Gibran escreveu:

“O pensamento é uma ave do espaço que, numa gaiola de palavras, pode abrir as asas, mas não pode voar. Há entre vós aqueles que procuram os faladores por medo da solidão. A quietude da solidão revela-lhes seu Eu desnudo,  e eles preferem escapar-lhe. E há aqueles que falam e,  sem o saber ou prever, traem uma verdade que eles próprios não compreendem.  E há aqueles que possuem a verdade dentro de si, mas não a expressam em palavras. No íntimo de tais pessoas, o espírito habita num silêncio rítmico. ” [6]

A palavra eficaz  surge da ação e da vivência conscientes. Nenhum discurso pode ser mais forte que a prática da qual ele emerge.  As palavras são extremamente úteis, quando sinceras. Mas só servem para desorientar quando estão divorciadas dos fatos. Neste caso, elas desorientam mais aquele que as diz do que aquele que ouve a falsidade, porque quem fala falsidades se acostuma com elas e perde o hábito de enxergar a verdade. Com isso, perde o rumo.

A ética budista recomenda a prática do Pensamento Correto, da Palavra Correta, da Ação Correta e do Meio de Vida Correto.  Os quatro pontos são inseparáveis.   “A Palavra Correta, ou linguagem pura” – escreve Georges da Silva – é a que traduz honestidade, verdade, paz, carinho; que é cortês, agradável, benéfica, útil, moderada e sensível. “Significa abstenção das mentiras, da difamação, da calúnia e de todas as palavras capazes de provocar ódio, inimizade, desunião e desarmonia entre indivíduos ou grupos sociais.” [7]

O espírito crítico é importante, porque significa discernimento.  Mas a intenção − que dá a direção e o sentido da palavra −  deve ser correta.  Podemos usar com mais eficácia o poder da palavra se evitarmos a dispersão mental e emocional, e se aprendermos a desejar a verdade sobre todas as coisas.  Esta meta, porém, não pode ser alcançada sem enfrentar numerosas armadilhas.   A  verdade promove uma perigosa destruição da ingenuidade e da preguiça a que estamos, em geral, acostumados. Quando a ilusão desaparece, num primeiro momento nos sentimos órfãos.  Só depois vem a sensação de liberdade.

Naturalmente, quem fala a verdade muitas vezes contraria interesses. A palavra sincera nem sempre encaixa nos esquemas dos poderosos. Aquele que tem coragem de ser íntegro percebe que muitas pessoas  preferem desconhecer a verdade. “O pior cego é aquele que não quer ver”, diz um ditado popular. E, às vezes, os que não querem ver estão em maioria. “Em terra de cegos, quem tem um olho é rei”, diz outro ditado. Mas, na realidade, em terra de cegos, quem tem um olho pode ser duramente perseguido, especialmente quando insiste em falar sobre o que vê.   Helena Blavatsky escreveu o seguinte:

“A sinceridade é a verdadeira sabedoria apenas para o filósofo moral. Ela é agressão e insulto para aquele que considera a dissimulação e o engano como cultura e cortesia (…).”

Para Blavatsky, a palavra é uma das principais armas do guerreiro da sabedoria.  Ela não deixa dúvidas:

“O nosso lema é e será sempre ‘não há religião superior à verdade’. O que procuramos é a verdade, e, uma vez encontrada, nós a colocamos diante do mundo, aconteça o que acontecer”. [8]

Embora possa ser atacado por dizer a verdade, o estudante da teosofia original jamais usa a palavra com o objetivo de ferir alguém. Ele vigia constantemente a sua própria atitude para que a intenção permaneça pura e ele não seja distraído pelo desejo medíocre de uma pequena vingança, nem desorientado pela vontade de humilhar sutilmente outra pessoa, ou  de parecer que é  melhor que alguém.

O uso eficiente do poder da palavra requer coragem, atenção e equilíbrio.  A luz da palavra sincera, inseparável da intenção correta, revela verdades incômodas, que a ignorância e a preguiça preferem rejeitar.  “Toda palavra verdadeira é o começo de um ato de justiça”, disse um pensador sábio.  Mas ele não disse que este começo era cômodo.  Eliphas Levi escreveu:  “A beleza da palavra é um esplendor da verdade. Uma palavra verdadeira é sempre bela, uma bela palavra é sempre verdadeira.” [9]

Felizmente, nem sempre é difícil falar a verdade. Quando há um clima de boa vontade e de liberdade de pensamento, as pessoas aceitam ser democraticamente contrariadas e não se ofendem com a primeira coisa “desagradável” que ouvem.  Nas situações em que há pensamento correto e confiança mútua,  cada um pode falar com  franqueza. Então os muros de defesa psicológica caem, as máscaras são abandonadas, e todos saem ganhando com isso.

Mas não basta controlar no dia-a-dia as palavras que falamos.  É necessário selecionar também as palavras que escutamos. Devemos decidir com atenção o que queremos ouvir no rádio ou na televisão.  É recomendável evitar filmes de violência e outras “obras de arte” em que a mentira e o egoísmo estão excessivamente presentes.  Tudo o que vemos tem impacto sobre o nosso subconsciente.

As pessoas com quem escolhemos nos relacionar devem ser bem selecionadas. É aconselhável adotar como amigos os mais sábios. Outra recomendação para a defesa da nossa alma contra emoções e pensamentos negativos é conduzir as conversas de que participamos para temas elevados.  Podemos ganhar grande paz e sabedoria mantendo presentes em todo e qualquer diálogo os sentimentos de ética, respeito e equilíbrio. A razão disto é simples. Cada palavra falada ou escutada  passa a habitar a nossa aura, isto é, a atmosfera eletromagnética sutil que rodeia e acompanha  nosso corpo físico.  Um raja iogue dos Himalaias afirmou:

“… Cada pensamento do homem, ao ser produzido, passa ao mundo interno e se torna uma entidade ativa associando-se – amalgamando-se, poderíamos dizer – com um elemental, isto é, com uma das forças semi-inteligentes dos reinos.  Ele sobrevive como inteligência ativa – uma criatura gerada pela mente – por um período mais curto ou mais longo, proporcionalmente à intensidade da ação cerebral que o gerou. Desse modo um bom pensamento  é perpetuado como força ativa e benéfica, um mau pensamento como demônio maléfico. Assim, o homem está constantemente ocupando sua corrente no espaço com seu próprio mundo, um mundo povoado com a prole de suas fantasias, desejos, impulsos e paixões; uma corrente que reage sobre qualquer organização sensível ou nervosa que entre em contato com ele na proporção da sua intensidade dinâmica. A isto os budistas chamam de ‘Skandha’. Os hindus chamam de ‘Carma’. O adepto produz essas formas conscientemente; os outros homens as atiram fora inconscientemente.” [10]

O uso equilibrado da palavra é uma prática sagrada, e constitui um ponto central do caminho da sabedoria.  No budismo, os seguidores de Buda Amida assumem um compromisso interior ao recitar diariamente a Cadeia de Ouro. Eles dizem:

“Eu sou um elo da Cadeia de Ouro do amor de Buda Amida, que se estende pelo mundo. Devo conservar meu elo brilhante e forte. Tentarei ter pensamentos belos e puros, dizer palavras belas e puras, praticar ações belas e puras, porque sei que de tudo quanto agora faço depende a minha felicidade ou infelicidade, assim como a felicidade dos outros seres. Possa todo elo da Cadeia de Ouro do amor de Buda Amida tornar-se brilhante e forte. E possamos todos nós alcançar a Paz Perfeita.” [11] Buda Amida significa Luz Eterna e Vida Infinita.

É decisiva, portanto, a importância do diálogo correto com todos, e da leitura constante sobre temas elevados.  O pensamento positivo cria emoções construtivas, e o resultado disso é boa saúde.  Por sua vez, a boa saúde nos inclina a ter sentimentos e pensamentos construtivos, e assim se  forma um círculo magnético de realimentação positiva. Não é por acaso que os gregos antigos tinham como lema “uma mente sã em um corpo são.”  As duas coisas  andam juntas e trazem consigo o despertar da inteligência espiritual.

Em qualquer situação, as palavras que usamos são instrumentos do pensamento, e o pensamento expressa o estado da alma.  O grau médio de equilíbrio e sabedoria presente nas palavras de alguém revela o nível médio de equilíbrio e sabedoria da sua alma.  Ser conscientemente responsável por tudo o que pensamos e dizemos é um ato de vontade que deve ser exercido durante a vida toda, mas também produz um bem-estar crescente a cada instante.  William Q. Judge escreveu:

“As palavras são coisas. Do meu ponto de vista, e também na realidade. No plano inferior da convivência social as palavras são coisas, mas coisas sem alma e mortas, porque a convenção na qual elas nascem as transforma em abortos. Mas quando nos afastamos das convenções, as palavras se tornam vivas na razão direta da veracidade e da pureza do pensamento que está por trás delas. Assim, no diálogo entre dois estudantes [da teosofia original] elas são coisas, e os estudantes devem cuidar para que a base do intercâmbio seja completamente compreendida. Devemos usar com cuidado estes mensageiros vivos chamados palavras.” [12]

Controlar e educar o fluxo das palavras pensadas e faladas elimina gradualmente a causa do nosso sofrimento, e também nos permite assumir por completo as rédeas da nossa vida. O controle do pensamento tende a ocorrer de modo natural, quando o indivíduo atende três pré-requisitos indispensáveis:

1) A primeira condição é que ele tenha uma meta definida e clara em sua vida;

2) A segunda é que esta meta seja correta, nobre e elevada; e

3) A terceira é que ele não esteja disposto a perder tempo ou energia com fatos pequenos e prejudiciais à meta.

A mente humana é do tamanho das metas que abraça.  Cada indivíduo atua e cria carma principalmente naquele nível de consciência em que estão os seus objetivos prioritários. Todas as metas da sua vida devem ganhar coerência e harmonia entre si.  Na tradição milenar do hinduísmo, há um trecho dos Upanixades que é usado há séculos como mantra e como oração. A força simples da sua sabedoria é inspiradora para quem busca viver com integridade.  Diz o “Aitareya Upanixade”:

“Que a minha palavra esteja em unidade com a minha mente. E que a minha mente esteja em unidade com a minha palavra. Ó tu, ser todo iluminado, afasta o véu da ignorância da minha frente, para que eu possa distinguir a tua luz. Quero buscar, noite e dia, incessantemente, a correta compreensão do teu ensinamento. Que eu possa falar a verdade divina. Que eu possa falar a verdade. Que a verdade me proteja. Que ela proteja meu Mestre.” [13]

O poder interior de uma oração como esta aproxima a mente do seu eu superior.  A alma imortal do ser humano é como uma fonte inesgotável de água pura. Dela brota a palavra correta, com sua mensagem de paz e verdade.

NOTAS:

[1] “A Chave dos Grandes Mistérios”, de Eliphas Levi, Ed. Pensamento, SP, p. 111.

Provérbios, 15, 1-7, e também 15:26 no Antigo Testamento.

[2] Antigo Testamento, Provérbios, 15, 1-7, e também 15:26.

[3] “Fedro”, Platão, Ed. Martin Claret, SP, 125 pp., ver pp. 123-124.

[4] “The Dhammapada”,  Theosophy Company, Los Angeles, 140 pp., ver p. 1.

[5] “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, editadas por C. Jinarajadasa, Ed. Teosófica. Ver a Carta III para Laura Holloway, p. 147.

[6] “O Profeta”, Gibran Khalil Gibran, ed. ACIGI, RJ, trad. Mansour Challita, 89 pp., ver pp. 57-58.

[7] “Budismo: Psicologia do Autoconhecimento”, de Georges da Silva e Rita Homenko, Ed. Pensamento, SP, ver p. 77.

[8] “Theosophical Articles”,  H. P. Blavatsky, Theosophy Company, Los Angeles,1981,  edição em três volumes, ver volume I, p. 279.

[9] “A Chave dos Grandes Mistérios”, Eliphas Levi, Ed. Pensamento, SP, ver p. 215.

[10] “Cartas dos Mahatmas Para A.P. Sinnett”, Ed. Teosófica, Brasília, 2001, edição em dois volumes, ver  volume II, Anexo I, p. 343.

[11] Citado por Murillo Nunes de Azevedo em “Rumo a Uma Mente Sábia e uma Sociedade Nobre”, coletânea de textos publicada pela Editora Teosófica, Brasília, 1994, ver pp. 132-133.

[12] “Letters That Have Helped Me”, William Q. Judge, The Theosophy Co., Los Angeles, 1946, 300 pp. , ver p. 11.

[13] “The Upanishads”, translated from the sanskrit by Swami Prabhavananda and  Frederick Manchester, Penguin Books, USA, 128 pp., ver p. 61.

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